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terça-feira, 23 de novembro de 2010

Alasca

Puseram-na fantasias das mais diversas sem que, no entanto, nenhuma delas vestisse-a melhor do que sua própria face gélida, a qual refletia nos espelhos, nas janelas, na prataria, nos olhos preocupados, nos olhos invejosos, nas pupilas dilatadas, na água que caía, caía, caía e que, como ela, era flagrada absorta contemplando nada mais do que o vazio.
A multidão contrastava e resplandecia; permanecia, no entanto, intocável a coloração da face gélida como a neve; branca como a neve; detentora da alcunha perfeita dedicada a poucos.
Recusando com um tapa nova vestimenta, a qual, novamente, não a aprazia, voltou-se aos cabides e deles retirou capa purpúrea, jogando-a sobre o corpo assim como jogava seu olhar de desprezo a todos que a cerceavam. Correu às escadas no intuito de descê-las e, assim como previra, o séquito a seguiu.
Bastardos! Infames! Não sou, nem jamais serei prisioneira de vossos caprichos! Pois a opressão mora dentro de minhas veias. Esquecera-se, ou apenas não quisera completar.
Vestidos serpenteavam pelo chão do palácio enquanto a movimentação e a balbúrdia eram construídas pela saída daquela que possuía o olhar majestoso; portões eram abertos e logo após fechados; ordens eram dadas sem que pudessem ser ouvidas; e então, a muito custo, finalmente encontrava-se ela sozinha.
Estava disposta a enfrentar a realidade. Deu alguns passos.
Fitou friamente a escuridão. Perguntava-se se não estava mesmo olhando dentro dos próprios olhos. Como pode ser a escuridão assim, tão luminosa?
A mulher destitui-se do próprio posto. Afinal, não existem rainhas em palácios e lugares que não existem. Não, ela já não mais existia.
A vitória já não cabe em nenhum lugar; a falsa sensação de felicidade morrerá dentro de qualquer orgulho. Incutida está e estará, para sempre, a derrota, dentro da memória.
Lâminas cortam o ar enquanto a razão é paga com a insanidade e enquanto a queda se torna, estranhamente, incomum.
Eis que então, como o pensamento mais lúcido de todos, o hálito venenoso da realidade surge e derrete a neve, esperando que novos tempos floresçam. 
terça-feira, 2 de novembro de 2010

O Céu Em Infravermelho





Do fim ao princípio e além só é eterna
a infindável reviravolta.
O tempo é só um contratempo, o mundo a efemeridade odiosa
daquele que, retornando ao começo procura o desfecho
da vida que existe porque não sobra.





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terça-feira, 26 de outubro de 2010

Daniela




Chá de canela.
Chá de panela.
Chá de janela.
E nela, Daniela.
Pacientemente, conscientemente, em seu processo extremo de inquietação.

Arroz com canela.
Arroz na panela.
Arroz atirado pela janela;
Por ela: Daniela.
Em sua inquietude, quieta e rude descobria sinônimos para a convicção.

No vidro a canela.
De vidro a panela.
E da janela, o que resta é
O vidro quebrado por Daniela.
Que, sucinta, achou dele insatisfatória a possibilidade de contemplação.
segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Os Bancos do Jardim, Esquecidos no Inverno

- Antes de tudo: eu te odeio. Mesmo assim, obrigada por ter vindo.
- Igualmente. E, se me permite o comentário, fico feliz que você tenha se tornado uma pessoa assim tão afetuosa.
- Na verdade, não lhe permiti qualquer comentário. Mas não importa. [ . . . ] Afinal, por que veio?
- Não era esse o combinado? Escuta, minha memória não é tão ruim assi...
- Você sabe que isso não é uma questão de lembrar-se ou não! O fato de você estar aqui me confere um perdão, coisa que não mereço.
- Pare de mudar tanto assim o discurso! Continue me odiando: eu ainda não lhe perdoei. Só queria poder vê-la uma última vez. Ou melhor, queria estar consciente de que esta seria a última vez que a veria.
- [ . . . ] Eu vi-o outras vezes depois que fui embora. Discreta que sou, estive até no seu casamento. Aliás, como estava linda Marianne naquele vestido! Fiquei contente por terem-se casado tão logo após meu desaparecimento: sinal de que o mundo sempre gira do modo como esperamos que ele faça.  Tiveram filhos?
- Nenhum. Animais de estimação contam?
- Contam.
- Também não tivemos.
- Uma pena. Bem, eu tive um filho. Dei a ele o seu nome, Gerald. Porém, o melhor dos filhos são os netos. Minha neta, tão jovem, tão bela... Felicidade transbordante! Faz-me lembrar a mim mesma em tempos idos. Por certo, às vezes pego-a roubando alguns trocados de minha carteira, mas nada que doa. Conheço seus planos: fugirá com o namorado no verão – está juntando dinheiro para a fuga.
- Incrível como se parecem tanto, apesar dos objetivos diametralmente opostos... Veja, se eu soubesse que você partiria, teria não fugido com você no verão, mas sim seqüestrado-a em plena primavera. [    .    .    .    ] Eu ia pedi-la em casamento, no dia em que fugisses.
- E eu teria aceito. Por isso fugi.
- Você fala como se fosse fácil para mim engolir isso, mesmo 54 anos depois.
- Pois foi e é fácil, querido. Você sobreviveu e está aqui, recriando-me como acha que devo ser.
- Estou sonhando? Maldição! Eu estou sonhando; só podia.
- Não, você está morrendo.
- Morrendo eu sempre estive. Você deveria ter dito : Gerald, você está muito próximo morte. Vim para buscar-te. Levar-te-ei ao inferno, – ou ao céu, como vou saber? – já que não pude fazer isso em vida.
- Poético e arcaico demais para meus modos. Controle-se e não me rebaixe tanto.
- Eu estou sonhando.
- Você está sonhando. Você é um velho que sonha muito.
- Ou nada sonha. Por isso fostes; meu vazio era incompatível com o teu.
- Que bom que compreendes.  [     .    .    .    ] Desculpe-me. Por tudo.
- Nada tenho a desculpar. Eu estava mentindo: minha memória é de todo muito ruim.
- A minha também. Gerald, eu quase não me lembrava do seu rosto; lembrava apenas que eu odiava o modo como você respirava, falava e observava as pessoas. Aliás, ainda odeio.
- Eu também amo você, Elizabeth.




[ Post dedicado à Daniela Lebre Garcia e também à Larissa Pernalonga. ]

domingo, 10 de outubro de 2010

Armários, Cômodas, Guarda-Roupas

Desamparados estão aqueles que amparados por mentiras foram; desamparados estão sem saber, sem suspeitar, ainda que invariavelmente encontrem-se, às vezes, duvidosos.

E a eles é aplicada então, mais meia dúzia de palavras com o intuito de lhes concederem o gosto da incerteza. Incerteza. Ela mesma, sim, pois se neste mundo inexistentes são as coisas imutáveis e absolutas, não há de ser a mentira, corrupta como ela só, exceção. Corrupta como ela só, fazendo-se mergulhar com doçura no inferno. Pois! É do inferno que se abrem as portas para o paraíso, e, enquanto já situado no paraíso, jamais poderá dele sair. Bela prisão. Quantos de nós escolheríamos – consciente ou inconscientemente – a prometida liberdade? Temo que você fosse um destes meliantes que acabariam com meu jogo. Não, não escolha tão rápido o inferno: deixe-me construí-lo para você.

Mentes mendazes, se eu pudesse mesmo lê-las todas, ainda assim seria incapaz de encontrar definição certa para os impulsos que tenho agora. Desvario meu ou não, penso que, mesmo ao revelar-me sinceramente, ainda estaria a mentir-lhes. Não está contida em mim a definição de verdade, portanto já não sei o que vem a ser o seu oposto. Contudo, o caos mora em mim, e por isso lhe afirmo: aqui está quem será para sempre o oposto.

Pensamentos pecaminosos são tão puros... Puramente humanos. E, no entanto, nenhum deles jamais me foi revelado; preciso enxergá-los onde estão, onde estarão e onde estiveram, preciso admirar apenas seus reflexos, preciso forçar-me às sombras da inocuidade e demonstrar apenas minha tão majestosa ética celestial.

Queria ter seu cérebro em minhas mãos. E o seu sangue quente escorrendo delas. Queria ter um amontoado de cérebros guardados como relíquias dentro dos armários, das cômodas, do meu guarda-roupa. Mas não os terei, já que o ato de consegui-los implicaria que os escolhidos, mesmo segundos antes de morrer, descobririam minha personalidade dominante. Isso não é amedrontador?

Não, eu não fui irônica, eu fui retórica, e espero que meu autocontrole tenha sido muito bem entendido. Espero que você tenha entendido a mentira por trás da mentira, por trás do segredo por trás da verdade – verdade que não passa de outra mentira.

Você nasceu para ser manipulado. Eu nasci para ser mártir em prol da tirania, o adorno estimado das masmorras. Eu nasci para mostrar que a luz em que você mergulha é muito mais perigosa que a escuridão, pois a sua luz é superficial; a escuridão é profunda.

Você queria a liberdade e eu a concedi, mas perceba que meu sangue ainda está no seu espelho quebrado. Querido, agora eu quero que você fuja. Porém nunca esqueça:

O seu cérebro já é meu.
domingo, 19 de setembro de 2010

A Casa do Berço Azul

Decidi, hoje, postar uma história que não é minha. Sei que estou fugindo do propósito de meu blog, mas é isso: regras precisam ser quebradas às vezes, para que o mundo adquira alguma graça. Porém, o que trago aqui não é um conto qualquer; é um poço de inspiração indissolúvel.
A Casa do Berço Azul é uma pequena história, de Cora Coralina, que muito fez parte da minha infância. Doce e sensível, o pequeno conto me emociona até hoje. Trazendo à tona sentimentos que vão desde a simplicidade e certa seguridade do passado, a amizade e a incerteza do futuro, perante o inevitável fim e esquecimento, Cora constrói a fina trama em que se faz o tempo, nos surpreendendo com mais esta belíssima... Poesia.




A Casa do Berço Azul


Dona Marcionilha e seu Chico Fiscal.

Era a casa deles.
Gostavam de flores, de vasos e de roseiras.
Um quintal muito grande de fruteiras fartas e escolhidas.
Criação de lebres e de coelhos, da meninada.
Gaiolas dependuradas.
Alçapões. Balanços pelos galhos.
Meninos brincando.
Meus e deles.
Passarinhos.
Frutas maduras pelos galhos, pelo chão.
Geração passada...

A Casa do Berço Azul...
Minha casa amiga...
De dois em dois anos, descia do alto da parede da despensa,
onde ficava ancorado o barquinho de uma nova vida,
prestes a chegar. Vinha para a terra o pequenino barco.
Seu Chico tomava um pincel e uma lata de tinta
e repintava o berço, sempre de azul. Renovava o pequeno colchão,
o pequeno travesseiro cheio de paina fina e nova.
Pela casa, panos macios, flanelas,
claros agasalhos, camisinhas, bordados delicados,
rendas, e sempre ela tricotando um xale de lã azul,
que mostrava sorrindo e feliz às suas amigas.

Liturgia foi assim, anos repetidos.
Apenas três vezes o berço mudou de cor:
Três meninas: Maria, Cacilda e Ercília.
Voltou ao azul: Wilson, Chiquinho e Válter.
Nunca se negaram àquela fecundidade modesta, tranqüila e consciente.

Bom Pai, boa Mãe, Bons amigos.
Minha gente!...
Voltei à velha cidade de Pinto Ferreira,
antiga fábrica de Nossa Senhora do Carmo de Jaboticabal,
no sabor antigo dos autos cartorários.

Antiga rua. Velhas casas.
Passei longa, silenciosa e atentamente,
perdida numa bruma pretérita.
Batia de porta em porta e perguntava:
"É aqui a Casa do berço Azul?"
"Não, não é esta".
Eu ficava sozinha, incerta.
Uma lágrima me dizia: "Não, não chora".

Uma jovem esposa no passeio.
Pesada e linda, numa veste solta.
"Minha jovem, será esta a Casa do Berço Azul?"
A jovem sorriu, olhou e não entendeu.
Nunca poderia me entender,
era imensa a distância que nos separava.
Adiante, uma senhora, cabelos grisalhando.
Perguntei: "Será esta a Casa do Berço Azul?"
"Não, não é aqui, nem ali, nem adiante, nem para os lados", disse ela.
"Não procures jamais o passado no presente.
Olha, sobe, vai caminhando, cruza ruas e avenidas.
Lá bem no alto, de onde se avista a cidade,
verás um portão largo, sempre aberto.
Entra.
Encontrarás construções diferentes,
pequenas e maiores.
Brancas, rosadas, escuras, tristes, floridas.
Silenciosas.
Numa rua estreita,
numerada como todas,
encontrarás adormecidos teus amigos,
juntos para sempre na morte como o foram na vida".



Longe, muito longe na distância,
ficou perdida para sempre
como sombra que se apaga, a Casa do Berço Azul.






Meu Livro de Cordel / Cora Coralina
domingo, 12 de setembro de 2010

A Casa da Esquina

Ele era muito ocupado. Muito. A pessoa mais ocupada do mundo. Ao menos, era isso o que parecia: enquanto se vestisse na mentira que contava a si mesmo, estaria livre do mundo e preso na jaula que era o egocentrismo.

Os passos eram duros e ágeis; pressionavam com aspereza o chão antigo das ruas, enquanto levantavam a poeira que na luz do dia tornava-se invisível. A maleta de couro legítimo, recém comprada, condizia com terno e sapatos, impecavelmente limpos – e caros –; os óculos escuros completavam a aparência do indivíduo, que debaixo de toda aquela altivez escondia um amontoado de emoções frágeis.

Havia um rosto que fazia tempos ele queria encontrar.  Porém, relutante, o homem afastara os pensamentos, deixando-os vagar longe para que, então, convergissem no desconhecido, sem que pudessem retornar para feri-lo. Fez isto para que sua camuflagem se mantivesse intocada: Seu egoísmo nunca estaria completo se porventura se ofendesse com o egoísmo alheio.

Eis que a face, outrora apagada, regressa vívida em sua mente, entremeio as esquinas daquele lugar que ele fora parar sabe-se lá como. Não havia dúvidas, era ela, a mesma de sempre: angelical e demoníaca, perfeita e decadente... Extraordinariamente reluzente e bonita para que se pudesse considerar humana.

Não. Ela não existe, e ela não precisa ser encontrada. Eu não preciso me perder. O homem seguiu seu rumo, sem perceber que havia errado o verbo: Já estava perdido.

Os passos ágeis, tão incomuns àquela tranqüilidade de cidade pequena, eram vistos com ceticidade pelos mais velhos, que à cena observavam dos bancos das praças ou em cadeiras de madeira carcomida postas em frente às casas. As poucas crianças observavam-no com curiosidade, como se de frente estivessem com alguma aberração.

Uma das crianças, um menino, o qual andava silenciosa e vagarosamente em sua pequena bicicleta, admirava absorto o estranho. Tanto que se aproximou demasiadamente e, no seu descuido, cruzou o caminho do homem. A desatenção mútua fez com que ambos alcançassem o chão. Nenhum ferimento, nenhuma grave conseqüência. Apenas uma bicicleta arranhada e um adulto perplexo, tão perplexo quanto antes parecia ocupado e impaciente.

Naquele fim de tarde atípico, dois pares de olhos encontraram-se atônitos, olhando-se sem se ver, porquanto cada qual se via refletido no outro. A mesma angústia, a mesma profundidade.
O garoto enfim levantou-se do chão, correndo desmedidamente em direção à grande e antiquada casa da esquina.  

O homem levantou a cabeça para que sua visão pudesse contemplar a casa do outro lado da rua, para onde a criança se fora; um estranho reconhecimento nostálgico percorreu-lhe a espinha. Como? A razão lhe dizia que jamais estivera ali antes; porém, algo... algum impulso... sim, um impulso...

Quando notou, já estava em frente à porta da residência, a casa nostálgica da esquina, com a pintura amarelo-creme desbotado.  Estagnado, não foi capaz de erguer uma das mãos para tocar a campainha; afinal, nada tinha a dizer, nada tinha a fazer ali. Mas aquele impulso...
A mulher que abriu a porta para encará-lo sorria, sorria por dentro e por fora, por ódio e por amor, por desentendimento e compreensão. Sorria com uma lágrima de memória, uma lágrima que escorria de olhos idênticos aos do menino na rua...

Eis que a face, outrora apagada, regressa vívida em sua mente. E agora, também, em seu mundo. 
── Precisamos conversar.
Disse a voz, angelical e demoníaca, perfeita e decadente...  Enquanto os pulmões contraíam-se e distendiam-se, dando forma à respiração ofegante, cúmplice eleita das surpresas contraditórias.

E ele adentrou a casa e ele ruiu, perdido que estava em sua convicção – aparentemente – infalível.
 

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