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sexta-feira, 16 de julho de 2010

Dezembro de 2000

Hoje, assim como nos dias anteriores, pretendia escrever sobre todas as minhas frugalidades e sentimentos teatrais. Ou seja, escrever sobre tudo que me cabe bem, que me serve à construção de alguém que me reveste, mas que não faz, nem nunca fez, propriamente, parte de mim.

Mas hoje, eu e minha máscara gélida nos deixamos surpreender... Pelo quê? Eu não sei, é uma palavra que não consegui encontrar; porque é impossível definir o brilho que se encontra nos olhos do seu primeiro amigo de infância, brilho este que você logo entende o significado: “você veio por mim”. E do mesmo modo é impossível não ver as lágrimas, há tanto tempo confinadas pelo esquivo autocontrole, brotarem novamente.

[...]

Bia. Podia ter sido qualquer outro nome: Sandy, Suzy, Angélica... Um desses nomes que as crianças associavam aos ídolos, quando eu era criança. Mas, não: Bia seria o nome que eu idolatraria pelo resto da minha infância. E, porque não, até hoje.

Lembro do primeiro dia que a vi; quando meu pai trouxe-a pela manhã, ainda cheia de carrapatos e mamonas grudadas no pêlo preto e branco. Fora encontrada na beira da estrada, onde poucos filhotes teriam a mesma sorte de sobreviver. Pulei de alegria ao vê-la: sem dúvidas era minha, totalmente minha; o presente que por tanto tempo eu havia esperado e que, finalmente, naquela manhã ensolarada de dezembro de 2000, chegou.

A partir daquele dia, a influência da presença dela em meu dia-a-dia foi notável: estudava durante toda a tarde, ansiando voltar para minha casa e brincar com Bia; para ela criava inúmeros apelidos, inúmeras histórias, inúmeros desenhos, “Minha Cachorrinha” era a personagem principal de todo o mundo paralelo que eu criava, a inspiração de toda a minha criatividade; E com ela também, eu compartilhava minhas incertezas, minhas tristezas, minha complexidade infantil... e sobretudo minhas lágrimas.

Chorei antes mesmo de conhecê-la, porque queria mais do que tudo um cão; chorei no fatídico dia em que dela tive de me separar (quando ela teve de ir para a casa da minha avó); chorei quando ela me rejeitou (e eu entendi como represália pelo meu “abandono”); chorei quando ela me perseguiu durante quinze quadras temendo por minha segurança e alheia à minha própria incompreensão; chorei por todas as vezes em que ela vinha até mim, solenemente, lamber-me as mãos e pedir-me desculpas pelo medo que me impôs, que antes não existia...

Bia sempre teve esse dom de me surpreender e de me despertar emoções impulsivas; assim como hoje. Hoje, chorei porque apesar de eu ter mudado tantos nesses dez anos, Bia ainda faz questão, mesmo doente e idosa, de juntar suas poucas forças restantes para erguer levemente sua cabeça e me olhar nos olhos... Me olhar nos olhos e dizer que me ama por tudo aquilo que eu realmente sou, me ama porque é capaz de enxergar dentro de mim, porque seus brilhantes olhos atingem minha alma.

Hoje, apesar deste dia gélido de inverno, sinto o calor de todas as emoções e sentimentos que meu melhor presente pôde me ensinar. E mesmo que meu presente se vá, comigo ainda ficará doces memórias... de quando nas tardes quentes aparecíamos triunfantes no portão de nossa casa, felizes para dizer ao mundo: Veja, nos completamos tão bem que nos tornamos uma só.

quarta-feira, 7 de julho de 2010

What more in the name of Love.




Querida e respeitosa Solidão, chegastes tão sutil e serena que quase não pude perceber tua presença. Qual não foi minha surpresa ao perceber que em teus vastos e brumosos braços eu me perdia!?


Mas não pudestes esconder tua natureza por muito tempo: Logo teu símbolo surgiu para mim, e mesmo hoje percebo que o eco de minha voz permeia o vazio e não chega a lugar algum; pois aqueles que distantemente eu sabia que eram capazes de me ouvir, já não o fazem mais.


Então, confortável e conscientemente estou aderindo à frieza que te é característica, querida Solidão, e sou a ti tão devota que te representarei, tenho certeza, com perfeição. Pois eu estou contigo e tu estás em mim, embora em mim caiba muito mais.


Em mim cabe todo o espírito sufocado, todo o vazio existencial, toda a falta de moralismo e de compaixão, todas as inverdades, todas as máscaras e todas as verdades deflagradas. Em mim cabe a complexidade do sentimento que se deve ao único, que é o todo, e que se perde. Ou se abandona. Ou se manda embora. Mas, em ti, Solidão, cabe apenas eu.


Dessa forma, amo a tua existência, visto que também sou egoísta. Porque em ti, Solidão, repito: cabe apenas eu.


[...]



E para aqueles que o meu olhar direciona, percebam o quão contraditória me torno: Preciso da crueldade de alguém para tomar-me a solidão, assim como... e eu me calo novamente pois não é esse o sentimento em questão.

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Indiferença

Pessoas transparecem sua inconsciência e perversidade de modo muito objetivo; E, de tão pretensiosamente seguras de suas verdades inventadas, tornam-se incapazes de perceber a óbvia incoerência das tais.

Mas, se pensam estes que podem ferir-me de algum modo... Bem, então é porque se encontram duplamente enganados. Pois a existência já é demasiada amoral, inconstante, injusta e mutável para meus olhos que já se cegaram de tanto ver, que mais um mero detalhe infeliz não fará diferença alguma.

Em síntese, se por acaso não pôde entender também minhas recentes palavras: quem fica preso aos “achismos”, nas pretensões de suas idéias totalmente ERRÔNEAS, sendo incapaz de mudar, bom, este não me serve; dispensado está de minha vida e sua real inconstância.

[...]

Mas se tem uma coisa que me deixa infeliz é o desaparecimento da palavra “exceção” e qualquer variante que esta possa ter. Ninguém acredita mais nela, e ninguém a pratica. Eu costumava acreditar, e eu costumava tentar ser. Mas que bela ilusão infantil! Estamos todos no mesmo barco, sem rumo, mas com certeza em direção à tempestade. Pelo menos agora posso compartilhar com meu eu mais íntimo a descoberta de que o sinônimo de “todo”- ou seria “todos”? - é “decepção”.

[...]

E nada foge à natureza humana.

[...]

Apenas mais uma coisa (ou várias), pois ainda preciso canalizar meu ódio, que hoje é muito, em inspiração.

Não estou pagando pra ver a última cena desta peça vazia e barata. Aliás, não deveria ter nem ao menos presenciado seu princípio.

[...]

Novamente, a indiferença vence. E reina absoluta.

domingo, 13 de junho de 2010

Ingrata, auto-denominada

Antes o brilho de distante estrela opaca, com sua magia não desvendada

Do que a visão perfeita e artificial deste sol contínuo que inventamos.

Antes céu manchado de cinza escuro, carregado das nuvens pesadas, por todas as lágrimas não derramadas

Do que o cenário confortável que vivemos por tantos anos.

Antes eu contigo, para provar ser real

Do que eu comigo mesma neste mundo de papel:

Mais eterno do que efêmero,

Mais silencioso do que incômodo,

Mais inequívoco do que a indiferença, embora ainda indiferente.

Então quero que você me leve pela estrada certa, desenhando-a com seu pincel

Enquanto lhe direi o que meu mistério, o meu segredo, o meu lado cruel

Dir-lhe-ei que

No desentender-se é que se encontra,

No desatino é que se fala mais sério,

É no concordar que se vai contra...

Até que a tinta se esvaia inteiramente de minhas veias,

Em minha contrariedade inexata

Para que eu lhe desvende a minha mentira – ou o meu dilema?

Pois sempre a dúvida que dita o fim...

É por amar-te tanto que te quero longe,

Muito longe de mim.

quinta-feira, 3 de junho de 2010

Que nada...

Precisava escrever uma carta ao silêncio e, sem outra escolha, busquei inspiração mais uma vez em nosso devaneio. Por isso me desculpo. Espero que o passado não retorne pra vingar-se com sua cólera, e espero sinceramente, também, que você me entenda.
Que nada. Você não pode me entender. Jamais entrará no meu mundo e saberá como eu me senti quando essa força mágica e tola nos uniu, sob a guarda de um contexto esdrúxulo e abalando as estruturas de qualquer política. Talvez por isso sejamos tão intocáveis em nossa figuração; o oposto exímio uma da outra conspirando para o fim teatral. A antipatia extrema para demonstrar o amor impossível. Um sentimento imaginário.
Que nada. Que nada...
O vazio jamais nos feriu. Mas é a você, pessoa que não existe, a quem dedicarei minhas palavras, na falta de mim mesma.
E a você, que desconheço: Bem vindo ao meu mundo. Bem vindo você, que eu não conheço, mas que assiste imparcial à minha encenação outrora estúpida; hoje nada mais do que simples ironia incauta.
Brindemos o óbvio; brindemos o princípio! Aqui temos, em mãos, um passaporte para o mundo inteiro. Aqui temos a carta que põem fim, definitivamente, ao silêncio amargo.
 

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