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sexta-feira, 29 de abril de 2011

Blue Flower

Devo ser franca. As palavras já não são mais capazes de conter aquilo tudo que há muito tempo transborda de meu ser.

Encontro-me no ponto comum do círculo infinito da vida e, talvez por conseqüência disso, não sei o que fazer. O mundo ao meu redor é apático, sem cor, sem futuro. Sem reação, contempla o instante ínfimo da morte. Desdobra-se em uma sociedade que já não pulsa; colapsa.

Não sei o que fazer. E hoje, isso é tudo o que sei. Eu, que interiormente sempre me vangloriei de a tudo sempre tentar entender... Hoje me recolho novamente à sombra, enquanto a destruição traz-me indelével nostalgia.  Quero também destruir-me por completo, se vier intrínseco o renascimento.  Também eu, sem reação, contemplo o instante ínfimo da morte. E não mais julgo, porque simplesmente cansei disso tudo.
Cansei do que eles dizem, do que eles pensam. Cansei de enxergar ar armadilhas. Cansei de saber muito bem onde se encontra o veneno de cada frase, de cada coisa que alguém profere... Cansei de sentir-me perseguida, incompreendida, excluída, rebaixada. Afinal, não serão as trevas o centro do mundo e, com isso, destituo-me assim de toda a paranóia.

Queria ser outra, sem deixar de ser eu mesma. Não, não... Isso ainda não é verdade.
Há um universo que não cabe dentro do meu corpo. Quero expandi-lo, libertá-lo; minha mente e meu coração imploram por isso. Porém, o espectro do infinito turva minha visão deste mundo, e ela mesma me levará embora, novamente.
Pois, eis que não sei o que fazer. Somente as palavras já não são mais capazes de conter aquilo tudo que há muito tempo transborda da própria criação.



Fim
sábado, 5 de março de 2011

The Earth as a Sunflower


Raquel, é com consternado alívio que observo daqui, de minha janela, as nuvens abrirem caminho para o sol iluminar minha face, a vizinhança e todo o resto. Pois você não sabe, menina, quão difíceis são os dias em que chove, onde o espírito de renascimento apenas relembra-me o momento de nossa indelével despedida.
Pois, também já não são mais as andorinhas que avisto ao contemplar o céu da primavera; já não é mais o mar cinzento e bravio que me afunda em divagações e imaginárias viagens perigosas. Não é mais o canto dos pássaros que me acorda; não é mais a sinfonia caprichosa dos grilos que me faz adormecer. Em minha condescendência muda, vi o mundo reduzir-se a um canto singelo do meu quarto, no qual eu ainda espero imóvel e esperançoso, o retorno triunfal do majestoso sol a minha janela.
E isso talvez porque seu retorno seja uma das poucas coisas que sempre permaneceram intactas ao longo destas duas décadas, cinco anos, nove meses e treze dias.
Raquel, já não sou mais aquele menininho dos tempos idos de infância. Perceba, já não recolho mais flores do campo para presenteá-la, esperando que, em troca, você lançasse-me aquele tépido olhar de desdém... Agora, meu espírito recluso apenas sonha libertar-se, resgatar-se, perder-se e resgatar-se novamente, até que tenha semeado, anos a fio e pelo mundo inteiro, partes da minha alma a cada encruzilhada, ponte e sarjeta, esperando que delas brotem girassóis. E que dos girassóis brotem sorrisos nos rostos das pessoas, e que do sorriso delas floresça... floresça novamente o que já se apagou em mim. E então, talvez, eu possa nascer de novo, quiçá como uma pétala, ou quem sabe uma lágrima de felicidade, em seu caminho.
Porque, Raquel, assim como a Terra gira em torno do sol, minha alma piegas ainda depende de sua veemência. Depois dessas duas décadas, cinco anos, nove meses, treze dias e vários minutos desperdiçados em cartas as quais nunca lhe enviarei.
 A distância é uma sina... bela, muitas vezes, é verdade, mas ainda incompreensível, estranhamente abstrata e concreta. Mas a distância... Oh, a distância! Devido a ela que percebo, Raquel, em você, o que tanto admiro nas estrelas:  o ardor com que brilham, na ingenuidade extrema de tentar tornarem-se eternas.
 

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