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domingo, 19 de setembro de 2010

A Casa do Berço Azul

Decidi, hoje, postar uma história que não é minha. Sei que estou fugindo do propósito de meu blog, mas é isso: regras precisam ser quebradas às vezes, para que o mundo adquira alguma graça. Porém, o que trago aqui não é um conto qualquer; é um poço de inspiração indissolúvel.
A Casa do Berço Azul é uma pequena história, de Cora Coralina, que muito fez parte da minha infância. Doce e sensível, o pequeno conto me emociona até hoje. Trazendo à tona sentimentos que vão desde a simplicidade e certa seguridade do passado, a amizade e a incerteza do futuro, perante o inevitável fim e esquecimento, Cora constrói a fina trama em que se faz o tempo, nos surpreendendo com mais esta belíssima... Poesia.




A Casa do Berço Azul


Dona Marcionilha e seu Chico Fiscal.

Era a casa deles.
Gostavam de flores, de vasos e de roseiras.
Um quintal muito grande de fruteiras fartas e escolhidas.
Criação de lebres e de coelhos, da meninada.
Gaiolas dependuradas.
Alçapões. Balanços pelos galhos.
Meninos brincando.
Meus e deles.
Passarinhos.
Frutas maduras pelos galhos, pelo chão.
Geração passada...

A Casa do Berço Azul...
Minha casa amiga...
De dois em dois anos, descia do alto da parede da despensa,
onde ficava ancorado o barquinho de uma nova vida,
prestes a chegar. Vinha para a terra o pequenino barco.
Seu Chico tomava um pincel e uma lata de tinta
e repintava o berço, sempre de azul. Renovava o pequeno colchão,
o pequeno travesseiro cheio de paina fina e nova.
Pela casa, panos macios, flanelas,
claros agasalhos, camisinhas, bordados delicados,
rendas, e sempre ela tricotando um xale de lã azul,
que mostrava sorrindo e feliz às suas amigas.

Liturgia foi assim, anos repetidos.
Apenas três vezes o berço mudou de cor:
Três meninas: Maria, Cacilda e Ercília.
Voltou ao azul: Wilson, Chiquinho e Válter.
Nunca se negaram àquela fecundidade modesta, tranqüila e consciente.

Bom Pai, boa Mãe, Bons amigos.
Minha gente!...
Voltei à velha cidade de Pinto Ferreira,
antiga fábrica de Nossa Senhora do Carmo de Jaboticabal,
no sabor antigo dos autos cartorários.

Antiga rua. Velhas casas.
Passei longa, silenciosa e atentamente,
perdida numa bruma pretérita.
Batia de porta em porta e perguntava:
"É aqui a Casa do berço Azul?"
"Não, não é esta".
Eu ficava sozinha, incerta.
Uma lágrima me dizia: "Não, não chora".

Uma jovem esposa no passeio.
Pesada e linda, numa veste solta.
"Minha jovem, será esta a Casa do Berço Azul?"
A jovem sorriu, olhou e não entendeu.
Nunca poderia me entender,
era imensa a distância que nos separava.
Adiante, uma senhora, cabelos grisalhando.
Perguntei: "Será esta a Casa do Berço Azul?"
"Não, não é aqui, nem ali, nem adiante, nem para os lados", disse ela.
"Não procures jamais o passado no presente.
Olha, sobe, vai caminhando, cruza ruas e avenidas.
Lá bem no alto, de onde se avista a cidade,
verás um portão largo, sempre aberto.
Entra.
Encontrarás construções diferentes,
pequenas e maiores.
Brancas, rosadas, escuras, tristes, floridas.
Silenciosas.
Numa rua estreita,
numerada como todas,
encontrarás adormecidos teus amigos,
juntos para sempre na morte como o foram na vida".



Longe, muito longe na distância,
ficou perdida para sempre
como sombra que se apaga, a Casa do Berço Azul.






Meu Livro de Cordel / Cora Coralina
domingo, 12 de setembro de 2010

A Casa da Esquina

Ele era muito ocupado. Muito. A pessoa mais ocupada do mundo. Ao menos, era isso o que parecia: enquanto se vestisse na mentira que contava a si mesmo, estaria livre do mundo e preso na jaula que era o egocentrismo.

Os passos eram duros e ágeis; pressionavam com aspereza o chão antigo das ruas, enquanto levantavam a poeira que na luz do dia tornava-se invisível. A maleta de couro legítimo, recém comprada, condizia com terno e sapatos, impecavelmente limpos – e caros –; os óculos escuros completavam a aparência do indivíduo, que debaixo de toda aquela altivez escondia um amontoado de emoções frágeis.

Havia um rosto que fazia tempos ele queria encontrar.  Porém, relutante, o homem afastara os pensamentos, deixando-os vagar longe para que, então, convergissem no desconhecido, sem que pudessem retornar para feri-lo. Fez isto para que sua camuflagem se mantivesse intocada: Seu egoísmo nunca estaria completo se porventura se ofendesse com o egoísmo alheio.

Eis que a face, outrora apagada, regressa vívida em sua mente, entremeio as esquinas daquele lugar que ele fora parar sabe-se lá como. Não havia dúvidas, era ela, a mesma de sempre: angelical e demoníaca, perfeita e decadente... Extraordinariamente reluzente e bonita para que se pudesse considerar humana.

Não. Ela não existe, e ela não precisa ser encontrada. Eu não preciso me perder. O homem seguiu seu rumo, sem perceber que havia errado o verbo: Já estava perdido.

Os passos ágeis, tão incomuns àquela tranqüilidade de cidade pequena, eram vistos com ceticidade pelos mais velhos, que à cena observavam dos bancos das praças ou em cadeiras de madeira carcomida postas em frente às casas. As poucas crianças observavam-no com curiosidade, como se de frente estivessem com alguma aberração.

Uma das crianças, um menino, o qual andava silenciosa e vagarosamente em sua pequena bicicleta, admirava absorto o estranho. Tanto que se aproximou demasiadamente e, no seu descuido, cruzou o caminho do homem. A desatenção mútua fez com que ambos alcançassem o chão. Nenhum ferimento, nenhuma grave conseqüência. Apenas uma bicicleta arranhada e um adulto perplexo, tão perplexo quanto antes parecia ocupado e impaciente.

Naquele fim de tarde atípico, dois pares de olhos encontraram-se atônitos, olhando-se sem se ver, porquanto cada qual se via refletido no outro. A mesma angústia, a mesma profundidade.
O garoto enfim levantou-se do chão, correndo desmedidamente em direção à grande e antiquada casa da esquina.  

O homem levantou a cabeça para que sua visão pudesse contemplar a casa do outro lado da rua, para onde a criança se fora; um estranho reconhecimento nostálgico percorreu-lhe a espinha. Como? A razão lhe dizia que jamais estivera ali antes; porém, algo... algum impulso... sim, um impulso...

Quando notou, já estava em frente à porta da residência, a casa nostálgica da esquina, com a pintura amarelo-creme desbotado.  Estagnado, não foi capaz de erguer uma das mãos para tocar a campainha; afinal, nada tinha a dizer, nada tinha a fazer ali. Mas aquele impulso...
A mulher que abriu a porta para encará-lo sorria, sorria por dentro e por fora, por ódio e por amor, por desentendimento e compreensão. Sorria com uma lágrima de memória, uma lágrima que escorria de olhos idênticos aos do menino na rua...

Eis que a face, outrora apagada, regressa vívida em sua mente. E agora, também, em seu mundo. 
── Precisamos conversar.
Disse a voz, angelical e demoníaca, perfeita e decadente...  Enquanto os pulmões contraíam-se e distendiam-se, dando forma à respiração ofegante, cúmplice eleita das surpresas contraditórias.

E ele adentrou a casa e ele ruiu, perdido que estava em sua convicção – aparentemente – infalível.
 

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