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terça-feira, 26 de outubro de 2010

Daniela




Chá de canela.
Chá de panela.
Chá de janela.
E nela, Daniela.
Pacientemente, conscientemente, em seu processo extremo de inquietação.

Arroz com canela.
Arroz na panela.
Arroz atirado pela janela;
Por ela: Daniela.
Em sua inquietude, quieta e rude descobria sinônimos para a convicção.

No vidro a canela.
De vidro a panela.
E da janela, o que resta é
O vidro quebrado por Daniela.
Que, sucinta, achou dele insatisfatória a possibilidade de contemplação.
segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Os Bancos do Jardim, Esquecidos no Inverno

- Antes de tudo: eu te odeio. Mesmo assim, obrigada por ter vindo.
- Igualmente. E, se me permite o comentário, fico feliz que você tenha se tornado uma pessoa assim tão afetuosa.
- Na verdade, não lhe permiti qualquer comentário. Mas não importa. [ . . . ] Afinal, por que veio?
- Não era esse o combinado? Escuta, minha memória não é tão ruim assi...
- Você sabe que isso não é uma questão de lembrar-se ou não! O fato de você estar aqui me confere um perdão, coisa que não mereço.
- Pare de mudar tanto assim o discurso! Continue me odiando: eu ainda não lhe perdoei. Só queria poder vê-la uma última vez. Ou melhor, queria estar consciente de que esta seria a última vez que a veria.
- [ . . . ] Eu vi-o outras vezes depois que fui embora. Discreta que sou, estive até no seu casamento. Aliás, como estava linda Marianne naquele vestido! Fiquei contente por terem-se casado tão logo após meu desaparecimento: sinal de que o mundo sempre gira do modo como esperamos que ele faça.  Tiveram filhos?
- Nenhum. Animais de estimação contam?
- Contam.
- Também não tivemos.
- Uma pena. Bem, eu tive um filho. Dei a ele o seu nome, Gerald. Porém, o melhor dos filhos são os netos. Minha neta, tão jovem, tão bela... Felicidade transbordante! Faz-me lembrar a mim mesma em tempos idos. Por certo, às vezes pego-a roubando alguns trocados de minha carteira, mas nada que doa. Conheço seus planos: fugirá com o namorado no verão – está juntando dinheiro para a fuga.
- Incrível como se parecem tanto, apesar dos objetivos diametralmente opostos... Veja, se eu soubesse que você partiria, teria não fugido com você no verão, mas sim seqüestrado-a em plena primavera. [    .    .    .    ] Eu ia pedi-la em casamento, no dia em que fugisses.
- E eu teria aceito. Por isso fugi.
- Você fala como se fosse fácil para mim engolir isso, mesmo 54 anos depois.
- Pois foi e é fácil, querido. Você sobreviveu e está aqui, recriando-me como acha que devo ser.
- Estou sonhando? Maldição! Eu estou sonhando; só podia.
- Não, você está morrendo.
- Morrendo eu sempre estive. Você deveria ter dito : Gerald, você está muito próximo morte. Vim para buscar-te. Levar-te-ei ao inferno, – ou ao céu, como vou saber? – já que não pude fazer isso em vida.
- Poético e arcaico demais para meus modos. Controle-se e não me rebaixe tanto.
- Eu estou sonhando.
- Você está sonhando. Você é um velho que sonha muito.
- Ou nada sonha. Por isso fostes; meu vazio era incompatível com o teu.
- Que bom que compreendes.  [     .    .    .    ] Desculpe-me. Por tudo.
- Nada tenho a desculpar. Eu estava mentindo: minha memória é de todo muito ruim.
- A minha também. Gerald, eu quase não me lembrava do seu rosto; lembrava apenas que eu odiava o modo como você respirava, falava e observava as pessoas. Aliás, ainda odeio.
- Eu também amo você, Elizabeth.




[ Post dedicado à Daniela Lebre Garcia e também à Larissa Pernalonga. ]

domingo, 10 de outubro de 2010

Armários, Cômodas, Guarda-Roupas

Desamparados estão aqueles que amparados por mentiras foram; desamparados estão sem saber, sem suspeitar, ainda que invariavelmente encontrem-se, às vezes, duvidosos.

E a eles é aplicada então, mais meia dúzia de palavras com o intuito de lhes concederem o gosto da incerteza. Incerteza. Ela mesma, sim, pois se neste mundo inexistentes são as coisas imutáveis e absolutas, não há de ser a mentira, corrupta como ela só, exceção. Corrupta como ela só, fazendo-se mergulhar com doçura no inferno. Pois! É do inferno que se abrem as portas para o paraíso, e, enquanto já situado no paraíso, jamais poderá dele sair. Bela prisão. Quantos de nós escolheríamos – consciente ou inconscientemente – a prometida liberdade? Temo que você fosse um destes meliantes que acabariam com meu jogo. Não, não escolha tão rápido o inferno: deixe-me construí-lo para você.

Mentes mendazes, se eu pudesse mesmo lê-las todas, ainda assim seria incapaz de encontrar definição certa para os impulsos que tenho agora. Desvario meu ou não, penso que, mesmo ao revelar-me sinceramente, ainda estaria a mentir-lhes. Não está contida em mim a definição de verdade, portanto já não sei o que vem a ser o seu oposto. Contudo, o caos mora em mim, e por isso lhe afirmo: aqui está quem será para sempre o oposto.

Pensamentos pecaminosos são tão puros... Puramente humanos. E, no entanto, nenhum deles jamais me foi revelado; preciso enxergá-los onde estão, onde estarão e onde estiveram, preciso admirar apenas seus reflexos, preciso forçar-me às sombras da inocuidade e demonstrar apenas minha tão majestosa ética celestial.

Queria ter seu cérebro em minhas mãos. E o seu sangue quente escorrendo delas. Queria ter um amontoado de cérebros guardados como relíquias dentro dos armários, das cômodas, do meu guarda-roupa. Mas não os terei, já que o ato de consegui-los implicaria que os escolhidos, mesmo segundos antes de morrer, descobririam minha personalidade dominante. Isso não é amedrontador?

Não, eu não fui irônica, eu fui retórica, e espero que meu autocontrole tenha sido muito bem entendido. Espero que você tenha entendido a mentira por trás da mentira, por trás do segredo por trás da verdade – verdade que não passa de outra mentira.

Você nasceu para ser manipulado. Eu nasci para ser mártir em prol da tirania, o adorno estimado das masmorras. Eu nasci para mostrar que a luz em que você mergulha é muito mais perigosa que a escuridão, pois a sua luz é superficial; a escuridão é profunda.

Você queria a liberdade e eu a concedi, mas perceba que meu sangue ainda está no seu espelho quebrado. Querido, agora eu quero que você fuja. Porém nunca esqueça:

O seu cérebro já é meu.
 

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