Com seus membros imóveis e seus olhos atentos, ali estava
ele: como um crocodilo imerso em um aquário repleto de peixinhos.
quarta-feira, 21 de dezembro de 2011
domingo, 18 de dezembro de 2011
calabouço
Sim, eu admiro a tua sombra. Admiro-a como quem admira as
páginas que sobraram do livro, outrora atirado
à fogueira das inquietações mundanas. Pois que, enquanto tu queimas no vazio
que existe entre o que foi e o que será, tua sombra permanece para fazer-me dúvida,
crer-te sano, enquanto todas as outras verdades se prostituem.
Que mais poderá constituir teu trono pecaminoso? Quem mais
poderá enlaçar-te plenamente, inefável fugaz? Acabaram-se os mistérios da
idoneidade; esgotaram-se os ingênuos; escaparam-lhe das mãos os fracos. Quantos
mais virão? E se você soubesse que apenas repete a história? Escondido em falso júbilo, está o calabouço do
mistério dos covardes.
Mandei que atirassem ao fogo, também, as chaves.
Estarei sonhando?
Olhos miram o passado, o presente, a distância
- entre eles, entre nós –
Estarei vislumbrando?
Tua infância, minha relíquia
Emoldurada em memória
Esbanjando, em mim,
E de mim,
desvarios.
quarta-feira, 7 de setembro de 2011
Casaco
A casa
antiga
Visito todo inverno.
Dão-me boas vindas,
Vastas cantigas
E o sorriso quente dos mais velhos.
- Menina! Que mãos frias!
Aqui o seu casaco,
O sol da vidraça,
Um cobertor pesado,
A botija,
O chá de guaco
E o teu passado.
Lágrimas brotam sobre efígie estática
Um retrato
Um casaco
Uma lembrança
O mesmo casaco
Um ponteiro
Um relógio
Uma esperança.
Nas mãos, o mesmo
Casaco e tempo.
Não, não o tempo.
- Avozinha,
guarde-o bem
Venho buscá-lo ano que vem.
quinta-feira, 14 de julho de 2011
Erva daninha
Erva daninha
Olhou de viés pela janela
Sorveu o chá de erva-doce
Tão quente que – ai como estremece a espinha!
- ai como dói a espinhela!
Erva daninha,
Alcunha antiga
Para nem-tão-doce-assim menina
Cristina.
Gélida é a sina,
Da infusão vespertina
Que atinge a fonte causticamente
A fonte é a língua
A qual, tão doce quanto cáustica – mente!
Erva daninha
Sorveu o chá de erva-doce
E o recusou entre dentes
Deixou cair a xícara – vingativa!
Um sorriso no rosto – insolente!
- Dê me alguém um copo-de-leite
Já não suporto mais
Esse maldito desgosto.
sábado, 25 de junho de 2011
Sejais bem vinda...
Acenei para a noite lá fora e questionei-a brandamente ‘─ Onde foi que deixei minha inspiração?’, ao que as sombras não tiveram resposta, porém as estrelas, impassíveis, continuaram a brilhar diretamente em meus olhos...
Peru, Nicarágua, Butão. E mais um mundo inteiro, um mundo inteiro que guardei em meus olhos; toda a paisagem inefável replicou à resplandecência perpétua. Pois que todos queriam corresponder às fulguras, todos também desejavam brilhar sem fenecer! As gigantes, soberanas mesmo à distância, logo deram cabo ao diálogo. Um consenso chegou a mim: Que fulgura eternamente apenas aquele que não conhece o tempo... Ou ignora seu fim.
Cáspite! Mais um segredo desvendado! Porém, ainda a dúvida: onde foi que deixei minha inspiração?
Ao longe, ao léu, dragões e flores recebiam a bênção protetora da geada; uma coruja caçava aos ratos e deixava sua sabedoria para depois; enquanto o zéfiro, querido zéfiro de toque gelado, vinha a mim, trazendo-me à consciência de meu próprio rosto. E sussurrava:
Inspiração não se deixa, não se esquece, não se trancafia! Jamais! É apenas a efêmera e majestosa visitante, que surge às vezes, no meio da madrugada, para tirar o sono daqueles que, num desvario cósmico, esquecem o tempo...
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sexta-feira, 29 de abril de 2011
Blue Flower
Devo ser franca. As palavras já não são mais capazes de conter aquilo tudo que há muito tempo transborda de meu ser.
Encontro-me no ponto comum do círculo infinito da vida e, talvez por conseqüência disso, não sei o que fazer. O mundo ao meu redor é apático, sem cor, sem futuro. Sem reação, contempla o instante ínfimo da morte. Desdobra-se em uma sociedade que já não pulsa; colapsa.
Não sei o que fazer. E hoje, isso é tudo o que sei. Eu, que interiormente sempre me vangloriei de a tudo sempre tentar entender... Hoje me recolho novamente à sombra, enquanto a destruição traz-me indelével nostalgia. Quero também destruir-me por completo, se vier intrínseco o renascimento. Também eu, sem reação, contemplo o instante ínfimo da morte. E não mais julgo, porque simplesmente cansei disso tudo.
Cansei do que eles dizem, do que eles pensam. Cansei de enxergar ar armadilhas. Cansei de saber muito bem onde se encontra o veneno de cada frase, de cada coisa que alguém profere... Cansei de sentir-me perseguida, incompreendida, excluída, rebaixada. Afinal, não serão as trevas o centro do mundo e, com isso, destituo-me assim de toda a paranóia.
Queria ser outra, sem deixar de ser eu mesma. Não, não... Isso ainda não é verdade.
Há um universo que não cabe dentro do meu corpo. Quero expandi-lo, libertá-lo; minha mente e meu coração imploram por isso. Porém, o espectro do infinito turva minha visão deste mundo, e ela mesma me levará embora, novamente.
Pois, eis que não sei o que fazer. Somente as palavras já não são mais capazes de conter aquilo tudo que há muito tempo transborda da própria criação.
Fim
segunda-feira, 28 de março de 2011
Mercúrio
Da amálgama voltarei ao pó
Almejando ter,
Almejando ser
De vossa alteza
O engodo algoz.
Reles seja meu canto,
Quebrar-te-ei o encanto
Tornando tua a minha voz.
Em uníssono, desataremos os nós
Em uníssono, esvairemos nós.
sábado, 5 de março de 2011
The Earth as a Sunflower
Raquel, é com consternado alívio que observo daqui, de minha janela, as nuvens abrirem caminho para o sol iluminar minha face, a vizinhança e todo o resto. Pois você não sabe, menina, quão difíceis são os dias em que chove, onde o espírito de renascimento apenas relembra-me o momento de nossa indelével despedida.
Pois, também já não são mais as andorinhas que avisto ao contemplar o céu da primavera; já não é mais o mar cinzento e bravio que me afunda em divagações e imaginárias viagens perigosas. Não é mais o canto dos pássaros que me acorda; não é mais a sinfonia caprichosa dos grilos que me faz adormecer. Em minha condescendência muda, vi o mundo reduzir-se a um canto singelo do meu quarto, no qual eu ainda espero imóvel e esperançoso, o retorno triunfal do majestoso sol a minha janela.
E isso talvez porque seu retorno seja uma das poucas coisas que sempre permaneceram intactas ao longo destas duas décadas, cinco anos, nove meses e treze dias.
Raquel, já não sou mais aquele menininho dos tempos idos de infância. Perceba, já não recolho mais flores do campo para presenteá-la, esperando que, em troca, você lançasse-me aquele tépido olhar de desdém... Agora, meu espírito recluso apenas sonha libertar-se, resgatar-se, perder-se e resgatar-se novamente, até que tenha semeado, anos a fio e pelo mundo inteiro, partes da minha alma a cada encruzilhada, ponte e sarjeta, esperando que delas brotem girassóis. E que dos girassóis brotem sorrisos nos rostos das pessoas, e que do sorriso delas floresça... floresça novamente o que já se apagou em mim. E então, talvez, eu possa nascer de novo, quiçá como uma pétala, ou quem sabe uma lágrima de felicidade, em seu caminho.
Porque, Raquel, assim como a Terra gira em torno do sol, minha alma piegas ainda depende de sua veemência. Depois dessas duas décadas, cinco anos, nove meses, treze dias e vários minutos desperdiçados em cartas as quais nunca lhe enviarei.
A distância é uma sina... bela, muitas vezes, é verdade, mas ainda incompreensível, estranhamente abstrata e concreta. Mas a distância... Oh, a distância! Devido a ela que percebo, Raquel, em você, o que tanto admiro nas estrelas: o ardor com que brilham, na ingenuidade extrema de tentar tornarem-se eternas.
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