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sábado, 4 de dezembro de 2010

Pathfinder



Um punhado de estrelas para um horizonte crítico. E uma vida ambígua.




terça-feira, 23 de novembro de 2010

Alasca

Puseram-na fantasias das mais diversas sem que, no entanto, nenhuma delas vestisse-a melhor do que sua própria face gélida, a qual refletia nos espelhos, nas janelas, na prataria, nos olhos preocupados, nos olhos invejosos, nas pupilas dilatadas, na água que caía, caía, caía e que, como ela, era flagrada absorta contemplando nada mais do que o vazio.
A multidão contrastava e resplandecia; permanecia, no entanto, intocável a coloração da face gélida como a neve; branca como a neve; detentora da alcunha perfeita dedicada a poucos.
Recusando com um tapa nova vestimenta, a qual, novamente, não a aprazia, voltou-se aos cabides e deles retirou capa purpúrea, jogando-a sobre o corpo assim como jogava seu olhar de desprezo a todos que a cerceavam. Correu às escadas no intuito de descê-las e, assim como previra, o séquito a seguiu.
Bastardos! Infames! Não sou, nem jamais serei prisioneira de vossos caprichos! Pois a opressão mora dentro de minhas veias. Esquecera-se, ou apenas não quisera completar.
Vestidos serpenteavam pelo chão do palácio enquanto a movimentação e a balbúrdia eram construídas pela saída daquela que possuía o olhar majestoso; portões eram abertos e logo após fechados; ordens eram dadas sem que pudessem ser ouvidas; e então, a muito custo, finalmente encontrava-se ela sozinha.
Estava disposta a enfrentar a realidade. Deu alguns passos.
Fitou friamente a escuridão. Perguntava-se se não estava mesmo olhando dentro dos próprios olhos. Como pode ser a escuridão assim, tão luminosa?
A mulher destitui-se do próprio posto. Afinal, não existem rainhas em palácios e lugares que não existem. Não, ela já não mais existia.
A vitória já não cabe em nenhum lugar; a falsa sensação de felicidade morrerá dentro de qualquer orgulho. Incutida está e estará, para sempre, a derrota, dentro da memória.
Lâminas cortam o ar enquanto a razão é paga com a insanidade e enquanto a queda se torna, estranhamente, incomum.
Eis que então, como o pensamento mais lúcido de todos, o hálito venenoso da realidade surge e derrete a neve, esperando que novos tempos floresçam. 
terça-feira, 2 de novembro de 2010

O Céu Em Infravermelho





Do fim ao princípio e além só é eterna
a infindável reviravolta.
O tempo é só um contratempo, o mundo a efemeridade odiosa
daquele que, retornando ao começo procura o desfecho
da vida que existe porque não sobra.





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terça-feira, 26 de outubro de 2010

Daniela




Chá de canela.
Chá de panela.
Chá de janela.
E nela, Daniela.
Pacientemente, conscientemente, em seu processo extremo de inquietação.

Arroz com canela.
Arroz na panela.
Arroz atirado pela janela;
Por ela: Daniela.
Em sua inquietude, quieta e rude descobria sinônimos para a convicção.

No vidro a canela.
De vidro a panela.
E da janela, o que resta é
O vidro quebrado por Daniela.
Que, sucinta, achou dele insatisfatória a possibilidade de contemplação.
segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Os Bancos do Jardim, Esquecidos no Inverno

- Antes de tudo: eu te odeio. Mesmo assim, obrigada por ter vindo.
- Igualmente. E, se me permite o comentário, fico feliz que você tenha se tornado uma pessoa assim tão afetuosa.
- Na verdade, não lhe permiti qualquer comentário. Mas não importa. [ . . . ] Afinal, por que veio?
- Não era esse o combinado? Escuta, minha memória não é tão ruim assi...
- Você sabe que isso não é uma questão de lembrar-se ou não! O fato de você estar aqui me confere um perdão, coisa que não mereço.
- Pare de mudar tanto assim o discurso! Continue me odiando: eu ainda não lhe perdoei. Só queria poder vê-la uma última vez. Ou melhor, queria estar consciente de que esta seria a última vez que a veria.
- [ . . . ] Eu vi-o outras vezes depois que fui embora. Discreta que sou, estive até no seu casamento. Aliás, como estava linda Marianne naquele vestido! Fiquei contente por terem-se casado tão logo após meu desaparecimento: sinal de que o mundo sempre gira do modo como esperamos que ele faça.  Tiveram filhos?
- Nenhum. Animais de estimação contam?
- Contam.
- Também não tivemos.
- Uma pena. Bem, eu tive um filho. Dei a ele o seu nome, Gerald. Porém, o melhor dos filhos são os netos. Minha neta, tão jovem, tão bela... Felicidade transbordante! Faz-me lembrar a mim mesma em tempos idos. Por certo, às vezes pego-a roubando alguns trocados de minha carteira, mas nada que doa. Conheço seus planos: fugirá com o namorado no verão – está juntando dinheiro para a fuga.
- Incrível como se parecem tanto, apesar dos objetivos diametralmente opostos... Veja, se eu soubesse que você partiria, teria não fugido com você no verão, mas sim seqüestrado-a em plena primavera. [    .    .    .    ] Eu ia pedi-la em casamento, no dia em que fugisses.
- E eu teria aceito. Por isso fugi.
- Você fala como se fosse fácil para mim engolir isso, mesmo 54 anos depois.
- Pois foi e é fácil, querido. Você sobreviveu e está aqui, recriando-me como acha que devo ser.
- Estou sonhando? Maldição! Eu estou sonhando; só podia.
- Não, você está morrendo.
- Morrendo eu sempre estive. Você deveria ter dito : Gerald, você está muito próximo morte. Vim para buscar-te. Levar-te-ei ao inferno, – ou ao céu, como vou saber? – já que não pude fazer isso em vida.
- Poético e arcaico demais para meus modos. Controle-se e não me rebaixe tanto.
- Eu estou sonhando.
- Você está sonhando. Você é um velho que sonha muito.
- Ou nada sonha. Por isso fostes; meu vazio era incompatível com o teu.
- Que bom que compreendes.  [     .    .    .    ] Desculpe-me. Por tudo.
- Nada tenho a desculpar. Eu estava mentindo: minha memória é de todo muito ruim.
- A minha também. Gerald, eu quase não me lembrava do seu rosto; lembrava apenas que eu odiava o modo como você respirava, falava e observava as pessoas. Aliás, ainda odeio.
- Eu também amo você, Elizabeth.




[ Post dedicado à Daniela Lebre Garcia e também à Larissa Pernalonga. ]

domingo, 10 de outubro de 2010

Armários, Cômodas, Guarda-Roupas

Desamparados estão aqueles que amparados por mentiras foram; desamparados estão sem saber, sem suspeitar, ainda que invariavelmente encontrem-se, às vezes, duvidosos.

E a eles é aplicada então, mais meia dúzia de palavras com o intuito de lhes concederem o gosto da incerteza. Incerteza. Ela mesma, sim, pois se neste mundo inexistentes são as coisas imutáveis e absolutas, não há de ser a mentira, corrupta como ela só, exceção. Corrupta como ela só, fazendo-se mergulhar com doçura no inferno. Pois! É do inferno que se abrem as portas para o paraíso, e, enquanto já situado no paraíso, jamais poderá dele sair. Bela prisão. Quantos de nós escolheríamos – consciente ou inconscientemente – a prometida liberdade? Temo que você fosse um destes meliantes que acabariam com meu jogo. Não, não escolha tão rápido o inferno: deixe-me construí-lo para você.

Mentes mendazes, se eu pudesse mesmo lê-las todas, ainda assim seria incapaz de encontrar definição certa para os impulsos que tenho agora. Desvario meu ou não, penso que, mesmo ao revelar-me sinceramente, ainda estaria a mentir-lhes. Não está contida em mim a definição de verdade, portanto já não sei o que vem a ser o seu oposto. Contudo, o caos mora em mim, e por isso lhe afirmo: aqui está quem será para sempre o oposto.

Pensamentos pecaminosos são tão puros... Puramente humanos. E, no entanto, nenhum deles jamais me foi revelado; preciso enxergá-los onde estão, onde estarão e onde estiveram, preciso admirar apenas seus reflexos, preciso forçar-me às sombras da inocuidade e demonstrar apenas minha tão majestosa ética celestial.

Queria ter seu cérebro em minhas mãos. E o seu sangue quente escorrendo delas. Queria ter um amontoado de cérebros guardados como relíquias dentro dos armários, das cômodas, do meu guarda-roupa. Mas não os terei, já que o ato de consegui-los implicaria que os escolhidos, mesmo segundos antes de morrer, descobririam minha personalidade dominante. Isso não é amedrontador?

Não, eu não fui irônica, eu fui retórica, e espero que meu autocontrole tenha sido muito bem entendido. Espero que você tenha entendido a mentira por trás da mentira, por trás do segredo por trás da verdade – verdade que não passa de outra mentira.

Você nasceu para ser manipulado. Eu nasci para ser mártir em prol da tirania, o adorno estimado das masmorras. Eu nasci para mostrar que a luz em que você mergulha é muito mais perigosa que a escuridão, pois a sua luz é superficial; a escuridão é profunda.

Você queria a liberdade e eu a concedi, mas perceba que meu sangue ainda está no seu espelho quebrado. Querido, agora eu quero que você fuja. Porém nunca esqueça:

O seu cérebro já é meu.
domingo, 19 de setembro de 2010

A Casa do Berço Azul

Decidi, hoje, postar uma história que não é minha. Sei que estou fugindo do propósito de meu blog, mas é isso: regras precisam ser quebradas às vezes, para que o mundo adquira alguma graça. Porém, o que trago aqui não é um conto qualquer; é um poço de inspiração indissolúvel.
A Casa do Berço Azul é uma pequena história, de Cora Coralina, que muito fez parte da minha infância. Doce e sensível, o pequeno conto me emociona até hoje. Trazendo à tona sentimentos que vão desde a simplicidade e certa seguridade do passado, a amizade e a incerteza do futuro, perante o inevitável fim e esquecimento, Cora constrói a fina trama em que se faz o tempo, nos surpreendendo com mais esta belíssima... Poesia.




A Casa do Berço Azul


Dona Marcionilha e seu Chico Fiscal.

Era a casa deles.
Gostavam de flores, de vasos e de roseiras.
Um quintal muito grande de fruteiras fartas e escolhidas.
Criação de lebres e de coelhos, da meninada.
Gaiolas dependuradas.
Alçapões. Balanços pelos galhos.
Meninos brincando.
Meus e deles.
Passarinhos.
Frutas maduras pelos galhos, pelo chão.
Geração passada...

A Casa do Berço Azul...
Minha casa amiga...
De dois em dois anos, descia do alto da parede da despensa,
onde ficava ancorado o barquinho de uma nova vida,
prestes a chegar. Vinha para a terra o pequenino barco.
Seu Chico tomava um pincel e uma lata de tinta
e repintava o berço, sempre de azul. Renovava o pequeno colchão,
o pequeno travesseiro cheio de paina fina e nova.
Pela casa, panos macios, flanelas,
claros agasalhos, camisinhas, bordados delicados,
rendas, e sempre ela tricotando um xale de lã azul,
que mostrava sorrindo e feliz às suas amigas.

Liturgia foi assim, anos repetidos.
Apenas três vezes o berço mudou de cor:
Três meninas: Maria, Cacilda e Ercília.
Voltou ao azul: Wilson, Chiquinho e Válter.
Nunca se negaram àquela fecundidade modesta, tranqüila e consciente.

Bom Pai, boa Mãe, Bons amigos.
Minha gente!...
Voltei à velha cidade de Pinto Ferreira,
antiga fábrica de Nossa Senhora do Carmo de Jaboticabal,
no sabor antigo dos autos cartorários.

Antiga rua. Velhas casas.
Passei longa, silenciosa e atentamente,
perdida numa bruma pretérita.
Batia de porta em porta e perguntava:
"É aqui a Casa do berço Azul?"
"Não, não é esta".
Eu ficava sozinha, incerta.
Uma lágrima me dizia: "Não, não chora".

Uma jovem esposa no passeio.
Pesada e linda, numa veste solta.
"Minha jovem, será esta a Casa do Berço Azul?"
A jovem sorriu, olhou e não entendeu.
Nunca poderia me entender,
era imensa a distância que nos separava.
Adiante, uma senhora, cabelos grisalhando.
Perguntei: "Será esta a Casa do Berço Azul?"
"Não, não é aqui, nem ali, nem adiante, nem para os lados", disse ela.
"Não procures jamais o passado no presente.
Olha, sobe, vai caminhando, cruza ruas e avenidas.
Lá bem no alto, de onde se avista a cidade,
verás um portão largo, sempre aberto.
Entra.
Encontrarás construções diferentes,
pequenas e maiores.
Brancas, rosadas, escuras, tristes, floridas.
Silenciosas.
Numa rua estreita,
numerada como todas,
encontrarás adormecidos teus amigos,
juntos para sempre na morte como o foram na vida".



Longe, muito longe na distância,
ficou perdida para sempre
como sombra que se apaga, a Casa do Berço Azul.






Meu Livro de Cordel / Cora Coralina
domingo, 12 de setembro de 2010

A Casa da Esquina

Ele era muito ocupado. Muito. A pessoa mais ocupada do mundo. Ao menos, era isso o que parecia: enquanto se vestisse na mentira que contava a si mesmo, estaria livre do mundo e preso na jaula que era o egocentrismo.

Os passos eram duros e ágeis; pressionavam com aspereza o chão antigo das ruas, enquanto levantavam a poeira que na luz do dia tornava-se invisível. A maleta de couro legítimo, recém comprada, condizia com terno e sapatos, impecavelmente limpos – e caros –; os óculos escuros completavam a aparência do indivíduo, que debaixo de toda aquela altivez escondia um amontoado de emoções frágeis.

Havia um rosto que fazia tempos ele queria encontrar.  Porém, relutante, o homem afastara os pensamentos, deixando-os vagar longe para que, então, convergissem no desconhecido, sem que pudessem retornar para feri-lo. Fez isto para que sua camuflagem se mantivesse intocada: Seu egoísmo nunca estaria completo se porventura se ofendesse com o egoísmo alheio.

Eis que a face, outrora apagada, regressa vívida em sua mente, entremeio as esquinas daquele lugar que ele fora parar sabe-se lá como. Não havia dúvidas, era ela, a mesma de sempre: angelical e demoníaca, perfeita e decadente... Extraordinariamente reluzente e bonita para que se pudesse considerar humana.

Não. Ela não existe, e ela não precisa ser encontrada. Eu não preciso me perder. O homem seguiu seu rumo, sem perceber que havia errado o verbo: Já estava perdido.

Os passos ágeis, tão incomuns àquela tranqüilidade de cidade pequena, eram vistos com ceticidade pelos mais velhos, que à cena observavam dos bancos das praças ou em cadeiras de madeira carcomida postas em frente às casas. As poucas crianças observavam-no com curiosidade, como se de frente estivessem com alguma aberração.

Uma das crianças, um menino, o qual andava silenciosa e vagarosamente em sua pequena bicicleta, admirava absorto o estranho. Tanto que se aproximou demasiadamente e, no seu descuido, cruzou o caminho do homem. A desatenção mútua fez com que ambos alcançassem o chão. Nenhum ferimento, nenhuma grave conseqüência. Apenas uma bicicleta arranhada e um adulto perplexo, tão perplexo quanto antes parecia ocupado e impaciente.

Naquele fim de tarde atípico, dois pares de olhos encontraram-se atônitos, olhando-se sem se ver, porquanto cada qual se via refletido no outro. A mesma angústia, a mesma profundidade.
O garoto enfim levantou-se do chão, correndo desmedidamente em direção à grande e antiquada casa da esquina.  

O homem levantou a cabeça para que sua visão pudesse contemplar a casa do outro lado da rua, para onde a criança se fora; um estranho reconhecimento nostálgico percorreu-lhe a espinha. Como? A razão lhe dizia que jamais estivera ali antes; porém, algo... algum impulso... sim, um impulso...

Quando notou, já estava em frente à porta da residência, a casa nostálgica da esquina, com a pintura amarelo-creme desbotado.  Estagnado, não foi capaz de erguer uma das mãos para tocar a campainha; afinal, nada tinha a dizer, nada tinha a fazer ali. Mas aquele impulso...
A mulher que abriu a porta para encará-lo sorria, sorria por dentro e por fora, por ódio e por amor, por desentendimento e compreensão. Sorria com uma lágrima de memória, uma lágrima que escorria de olhos idênticos aos do menino na rua...

Eis que a face, outrora apagada, regressa vívida em sua mente. E agora, também, em seu mundo. 
── Precisamos conversar.
Disse a voz, angelical e demoníaca, perfeita e decadente...  Enquanto os pulmões contraíam-se e distendiam-se, dando forma à respiração ofegante, cúmplice eleita das surpresas contraditórias.

E ele adentrou a casa e ele ruiu, perdido que estava em sua convicção – aparentemente – infalível.
sábado, 7 de agosto de 2010

Agosto Criativo

Falemos de inspiração. Falemos da facilidade com a qual nossa mente transpõe a barreira do cotidiano para expressar-se em idéias, quaisquer que sejam, expondo-se a representar distintamente o mundo à nossa própria maneira.

Falemos disso, pois falando disso tu estavas... E disseste-me que tua inspiração é dependente da pessoa para a qual se destina. O modo, então, como representas o mundo, objetiva ser efetiva e atingir a pessoa com a tua visão única. Mas minha amiga, tanto eu quanto tu escrevemos com tanta paixão nossas histórias que a tal representatividade contida nelas não poderia tão somente ocupar outro lugar em nossos corações senão aquele ao qual já ocupa/ocupou o amor. E quando dizes que depende de tal ou outra pessoa para pores teu trabalho em prática... Então para mim demonstras que te empenhas verdadeiramente naquilo que te propões.

No entanto, em meus devaneios – tão notados por ti - deparo-me novamente com a nossa própria jornada, e a nostalgia eterna que são nossas conversas, simples reminiscências do que já fomos um dia. Porque quando contigo estou – mesmo que figurativamente - não é possível que exista apenas o meu, ou o teu mundo. Existe o nosso... construído com palavras, lágrimas , culpa e muito arrependimento. Mas um mundo inteiramente nosso; o lugar para o qual poderemos voltar todas as noites em busca de conforto, quando então percebemos a distância dos sonhos ao realizável. E a distância do intangível, do infactível, e do imutável, a nós mesmos.

Então percebemos que o amor não existe, pois fomos nós que o criamos dentro de nosso conto fantasioso, tentando dar algum significado às palavras que não sabíamos distinguir. Um sentimento existiu, pois é dele agora que retiro o motivo para te escrever. No entanto, qual foi ele? Nos vários “eus” que criei para te escrever, deles só me restaram uma memória distorcida, e muitas palavras.

Agora, estou tremendo, mas não é de frio: É de vergonha por ter ensinado tão pouco a quem me ensinou tanto; Embora também trema de orgulho, satisfação e saudade. Oh, oh... Tudo teria sido mais fácil se em mim tu não tivesses buscado tanta inspiração; e se ainda hoje eu não buscasse ela, na tua personalidade incansável, surpreendente e sonhadora.

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Dezembro de 2000

Hoje, assim como nos dias anteriores, pretendia escrever sobre todas as minhas frugalidades e sentimentos teatrais. Ou seja, escrever sobre tudo que me cabe bem, que me serve à construção de alguém que me reveste, mas que não faz, nem nunca fez, propriamente, parte de mim.

Mas hoje, eu e minha máscara gélida nos deixamos surpreender... Pelo quê? Eu não sei, é uma palavra que não consegui encontrar; porque é impossível definir o brilho que se encontra nos olhos do seu primeiro amigo de infância, brilho este que você logo entende o significado: “você veio por mim”. E do mesmo modo é impossível não ver as lágrimas, há tanto tempo confinadas pelo esquivo autocontrole, brotarem novamente.

[...]

Bia. Podia ter sido qualquer outro nome: Sandy, Suzy, Angélica... Um desses nomes que as crianças associavam aos ídolos, quando eu era criança. Mas, não: Bia seria o nome que eu idolatraria pelo resto da minha infância. E, porque não, até hoje.

Lembro do primeiro dia que a vi; quando meu pai trouxe-a pela manhã, ainda cheia de carrapatos e mamonas grudadas no pêlo preto e branco. Fora encontrada na beira da estrada, onde poucos filhotes teriam a mesma sorte de sobreviver. Pulei de alegria ao vê-la: sem dúvidas era minha, totalmente minha; o presente que por tanto tempo eu havia esperado e que, finalmente, naquela manhã ensolarada de dezembro de 2000, chegou.

A partir daquele dia, a influência da presença dela em meu dia-a-dia foi notável: estudava durante toda a tarde, ansiando voltar para minha casa e brincar com Bia; para ela criava inúmeros apelidos, inúmeras histórias, inúmeros desenhos, “Minha Cachorrinha” era a personagem principal de todo o mundo paralelo que eu criava, a inspiração de toda a minha criatividade; E com ela também, eu compartilhava minhas incertezas, minhas tristezas, minha complexidade infantil... e sobretudo minhas lágrimas.

Chorei antes mesmo de conhecê-la, porque queria mais do que tudo um cão; chorei no fatídico dia em que dela tive de me separar (quando ela teve de ir para a casa da minha avó); chorei quando ela me rejeitou (e eu entendi como represália pelo meu “abandono”); chorei quando ela me perseguiu durante quinze quadras temendo por minha segurança e alheia à minha própria incompreensão; chorei por todas as vezes em que ela vinha até mim, solenemente, lamber-me as mãos e pedir-me desculpas pelo medo que me impôs, que antes não existia...

Bia sempre teve esse dom de me surpreender e de me despertar emoções impulsivas; assim como hoje. Hoje, chorei porque apesar de eu ter mudado tantos nesses dez anos, Bia ainda faz questão, mesmo doente e idosa, de juntar suas poucas forças restantes para erguer levemente sua cabeça e me olhar nos olhos... Me olhar nos olhos e dizer que me ama por tudo aquilo que eu realmente sou, me ama porque é capaz de enxergar dentro de mim, porque seus brilhantes olhos atingem minha alma.

Hoje, apesar deste dia gélido de inverno, sinto o calor de todas as emoções e sentimentos que meu melhor presente pôde me ensinar. E mesmo que meu presente se vá, comigo ainda ficará doces memórias... de quando nas tardes quentes aparecíamos triunfantes no portão de nossa casa, felizes para dizer ao mundo: Veja, nos completamos tão bem que nos tornamos uma só.

quarta-feira, 7 de julho de 2010

What more in the name of Love.




Querida e respeitosa Solidão, chegastes tão sutil e serena que quase não pude perceber tua presença. Qual não foi minha surpresa ao perceber que em teus vastos e brumosos braços eu me perdia!?


Mas não pudestes esconder tua natureza por muito tempo: Logo teu símbolo surgiu para mim, e mesmo hoje percebo que o eco de minha voz permeia o vazio e não chega a lugar algum; pois aqueles que distantemente eu sabia que eram capazes de me ouvir, já não o fazem mais.


Então, confortável e conscientemente estou aderindo à frieza que te é característica, querida Solidão, e sou a ti tão devota que te representarei, tenho certeza, com perfeição. Pois eu estou contigo e tu estás em mim, embora em mim caiba muito mais.


Em mim cabe todo o espírito sufocado, todo o vazio existencial, toda a falta de moralismo e de compaixão, todas as inverdades, todas as máscaras e todas as verdades deflagradas. Em mim cabe a complexidade do sentimento que se deve ao único, que é o todo, e que se perde. Ou se abandona. Ou se manda embora. Mas, em ti, Solidão, cabe apenas eu.


Dessa forma, amo a tua existência, visto que também sou egoísta. Porque em ti, Solidão, repito: cabe apenas eu.


[...]



E para aqueles que o meu olhar direciona, percebam o quão contraditória me torno: Preciso da crueldade de alguém para tomar-me a solidão, assim como... e eu me calo novamente pois não é esse o sentimento em questão.

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Indiferença

Pessoas transparecem sua inconsciência e perversidade de modo muito objetivo; E, de tão pretensiosamente seguras de suas verdades inventadas, tornam-se incapazes de perceber a óbvia incoerência das tais.

Mas, se pensam estes que podem ferir-me de algum modo... Bem, então é porque se encontram duplamente enganados. Pois a existência já é demasiada amoral, inconstante, injusta e mutável para meus olhos que já se cegaram de tanto ver, que mais um mero detalhe infeliz não fará diferença alguma.

Em síntese, se por acaso não pôde entender também minhas recentes palavras: quem fica preso aos “achismos”, nas pretensões de suas idéias totalmente ERRÔNEAS, sendo incapaz de mudar, bom, este não me serve; dispensado está de minha vida e sua real inconstância.

[...]

Mas se tem uma coisa que me deixa infeliz é o desaparecimento da palavra “exceção” e qualquer variante que esta possa ter. Ninguém acredita mais nela, e ninguém a pratica. Eu costumava acreditar, e eu costumava tentar ser. Mas que bela ilusão infantil! Estamos todos no mesmo barco, sem rumo, mas com certeza em direção à tempestade. Pelo menos agora posso compartilhar com meu eu mais íntimo a descoberta de que o sinônimo de “todo”- ou seria “todos”? - é “decepção”.

[...]

E nada foge à natureza humana.

[...]

Apenas mais uma coisa (ou várias), pois ainda preciso canalizar meu ódio, que hoje é muito, em inspiração.

Não estou pagando pra ver a última cena desta peça vazia e barata. Aliás, não deveria ter nem ao menos presenciado seu princípio.

[...]

Novamente, a indiferença vence. E reina absoluta.

domingo, 13 de junho de 2010

Ingrata, auto-denominada

Antes o brilho de distante estrela opaca, com sua magia não desvendada

Do que a visão perfeita e artificial deste sol contínuo que inventamos.

Antes céu manchado de cinza escuro, carregado das nuvens pesadas, por todas as lágrimas não derramadas

Do que o cenário confortável que vivemos por tantos anos.

Antes eu contigo, para provar ser real

Do que eu comigo mesma neste mundo de papel:

Mais eterno do que efêmero,

Mais silencioso do que incômodo,

Mais inequívoco do que a indiferença, embora ainda indiferente.

Então quero que você me leve pela estrada certa, desenhando-a com seu pincel

Enquanto lhe direi o que meu mistério, o meu segredo, o meu lado cruel

Dir-lhe-ei que

No desentender-se é que se encontra,

No desatino é que se fala mais sério,

É no concordar que se vai contra...

Até que a tinta se esvaia inteiramente de minhas veias,

Em minha contrariedade inexata

Para que eu lhe desvende a minha mentira – ou o meu dilema?

Pois sempre a dúvida que dita o fim...

É por amar-te tanto que te quero longe,

Muito longe de mim.

quinta-feira, 3 de junho de 2010

Que nada...

Precisava escrever uma carta ao silêncio e, sem outra escolha, busquei inspiração mais uma vez em nosso devaneio. Por isso me desculpo. Espero que o passado não retorne pra vingar-se com sua cólera, e espero sinceramente, também, que você me entenda.
Que nada. Você não pode me entender. Jamais entrará no meu mundo e saberá como eu me senti quando essa força mágica e tola nos uniu, sob a guarda de um contexto esdrúxulo e abalando as estruturas de qualquer política. Talvez por isso sejamos tão intocáveis em nossa figuração; o oposto exímio uma da outra conspirando para o fim teatral. A antipatia extrema para demonstrar o amor impossível. Um sentimento imaginário.
Que nada. Que nada...
O vazio jamais nos feriu. Mas é a você, pessoa que não existe, a quem dedicarei minhas palavras, na falta de mim mesma.
E a você, que desconheço: Bem vindo ao meu mundo. Bem vindo você, que eu não conheço, mas que assiste imparcial à minha encenação outrora estúpida; hoje nada mais do que simples ironia incauta.
Brindemos o óbvio; brindemos o princípio! Aqui temos, em mãos, um passaporte para o mundo inteiro. Aqui temos a carta que põem fim, definitivamente, ao silêncio amargo.
 

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