Pathfinder
Alasca
O Céu Em Infravermelho
..............................................................................................
Daniela
Os Bancos do Jardim, Esquecidos no Inverno
[ Post dedicado à Daniela Lebre Garcia e também à Larissa Pernalonga. ]
Armários, Cômodas, Guarda-Roupas
O seu cérebro já é meu.
A Casa do Berço Azul
Gostavam de flores, de vasos e de roseiras.
Um quintal muito grande de fruteiras fartas e escolhidas.
Criação de lebres e de coelhos, da meninada.
Gaiolas dependuradas.
Alçapões. Balanços pelos galhos.
Meninos brincando.
Meus e deles.
Passarinhos.
Frutas maduras pelos galhos, pelo chão.
Geração passada...
Minha casa amiga...
De dois em dois anos, descia do alto da parede da despensa,
onde ficava ancorado o barquinho de uma nova vida,
prestes a chegar. Vinha para a terra o pequenino barco.
Seu Chico tomava um pincel e uma lata de tinta
e repintava o berço, sempre de azul. Renovava o pequeno colchão,
o pequeno travesseiro cheio de paina fina e nova.
Pela casa, panos macios, flanelas,
claros agasalhos, camisinhas, bordados delicados,
rendas, e sempre ela tricotando um xale de lã azul,
que mostrava sorrindo e feliz às suas amigas.
Apenas três vezes o berço mudou de cor:
Três meninas: Maria, Cacilda e Ercília.
Voltou ao azul: Wilson, Chiquinho e Válter.
Nunca se negaram àquela fecundidade modesta, tranqüila e consciente.
Minha gente!...
Voltei à velha cidade de Pinto Ferreira,
antiga fábrica de Nossa Senhora do Carmo de Jaboticabal,
no sabor antigo dos autos cartorários.
Passei longa, silenciosa e atentamente,
perdida numa bruma pretérita.
Batia de porta em porta e perguntava:
"É aqui a Casa do berço Azul?"
"Não, não é esta".
Eu ficava sozinha, incerta.
Uma lágrima me dizia: "Não, não chora".
Pesada e linda, numa veste solta.
"Minha jovem, será esta a Casa do Berço Azul?"
A jovem sorriu, olhou e não entendeu.
Nunca poderia me entender,
era imensa a distância que nos separava.
Adiante, uma senhora, cabelos grisalhando.
Perguntei: "Será esta a Casa do Berço Azul?"
"Não, não é aqui, nem ali, nem adiante, nem para os lados", disse ela.
"Não procures jamais o passado no presente.
Olha, sobe, vai caminhando, cruza ruas e avenidas.
Lá bem no alto, de onde se avista a cidade,
verás um portão largo, sempre aberto.
Entra.
Encontrarás construções diferentes,
pequenas e maiores.
Brancas, rosadas, escuras, tristes, floridas.
Silenciosas.
Numa rua estreita,
numerada como todas,
encontrarás adormecidos teus amigos,
juntos para sempre na morte como o foram na vida".
ficou perdida para sempre
como sombra que se apaga, a Casa do Berço Azul.
A Casa da Esquina
Agosto Criativo
Falemos de inspiração. Falemos da facilidade com a qual nossa mente transpõe a barreira do cotidiano para expressar-se em idéias, quaisquer que sejam, expondo-se a representar distintamente o mundo à nossa própria maneira.
Falemos disso, pois falando disso tu estavas... E disseste-me que tua inspiração é dependente da pessoa para a qual se destina. O modo, então, como representas o mundo, objetiva ser efetiva e atingir a pessoa com a tua visão única. Mas minha amiga, tanto eu quanto tu escrevemos com tanta paixão nossas histórias que a tal representatividade contida nelas não poderia tão somente ocupar outro lugar em nossos corações senão aquele ao qual já ocupa/ocupou o amor. E quando dizes que depende de tal ou outra pessoa para pores teu trabalho em prática... Então para mim demonstras que te empenhas verdadeiramente naquilo que te propões.
No entanto, em meus devaneios – tão notados por ti - deparo-me novamente com a nossa própria jornada, e a nostalgia eterna que são nossas conversas, simples reminiscências do que já fomos um dia. Porque quando contigo estou – mesmo que figurativamente - não é possível que exista apenas o meu, ou o teu mundo. Existe o nosso... construído com palavras, lágrimas , culpa e muito arrependimento. Mas um mundo inteiramente nosso; o lugar para o qual poderemos voltar todas as noites em busca de conforto, quando então percebemos a distância dos sonhos ao realizável. E a distância do intangível, do infactível, e do imutável, a nós mesmos.
Então percebemos que o amor não existe, pois fomos nós que o criamos dentro de nosso conto fantasioso, tentando dar algum significado às palavras que não sabíamos distinguir. Um sentimento existiu, pois é dele agora que retiro o motivo para te escrever. No entanto, qual foi ele? Nos vários “eus” que criei para te escrever, deles só me restaram uma memória distorcida, e muitas palavras.
Agora, estou tremendo, mas não é de frio: É de vergonha por ter ensinado tão pouco a quem me ensinou tanto; Embora também trema de orgulho, satisfação e saudade. Oh, oh... Tudo teria sido mais fácil se em mim tu não tivesses buscado tanta inspiração; e se ainda hoje eu não buscasse ela, na tua personalidade incansável, surpreendente e sonhadora.
Dezembro de 2000
Hoje, assim como nos dias anteriores, pretendia escrever sobre todas as minhas frugalidades e sentimentos teatrais. Ou seja, escrever sobre tudo que me cabe bem, que me serve à construção de alguém que me reveste, mas que não faz, nem nunca fez, propriamente, parte de mim.
Mas hoje, eu e minha máscara gélida nos deixamos surpreender... Pelo quê? Eu não sei, é uma palavra que não consegui encontrar; porque é impossível definir o brilho que se encontra nos olhos do seu primeiro amigo de infância, brilho este que você logo entende o significado: “você veio por mim”. E do mesmo modo é impossível não ver as lágrimas, há tanto tempo confinadas pelo esquivo autocontrole, brotarem novamente.
[...]
Bia. Podia ter sido qualquer outro nome: Sandy, Suzy, Angélica... Um desses nomes que as crianças associavam aos ídolos, quando eu era criança. Mas, não: Bia seria o nome que eu idolatraria pelo resto da minha infância. E, porque não, até hoje.
Lembro do primeiro dia que a vi; quando meu pai trouxe-a pela manhã, ainda cheia de carrapatos e mamonas grudadas no pêlo preto e branco. Fora encontrada na beira da estrada, onde poucos filhotes teriam a mesma sorte de sobreviver. Pulei de alegria ao vê-la: sem dúvidas era minha, totalmente minha; o presente que por tanto tempo eu havia esperado e que, finalmente, naquela manhã ensolarada de dezembro de 2000, chegou.
A partir daquele dia, a influência da presença dela em meu dia-a-dia foi notável: estudava durante toda a tarde, ansiando voltar para minha casa e brincar com Bia; para ela criava inúmeros apelidos, inúmeras histórias, inúmeros desenhos, “Minha Cachorrinha” era a personagem principal de todo o mundo paralelo que eu criava, a inspiração de toda a minha criatividade; E com ela também, eu compartilhava minhas incertezas, minhas tristezas, minha complexidade infantil... e sobretudo minhas lágrimas.
Chorei antes mesmo de conhecê-la, porque queria mais do que tudo um cão; chorei no fatídico dia em que dela tive de me separar (quando ela teve de ir para a casa da minha avó); chorei quando ela me rejeitou (e eu entendi como represália pelo meu “abandono”); chorei quando ela me perseguiu durante quinze quadras temendo por minha segurança e alheia à minha própria incompreensão; chorei por todas as vezes em que ela vinha até mim, solenemente, lamber-me as mãos e pedir-me desculpas pelo medo que me impôs, que antes não existia...
Bia sempre teve esse dom de me surpreender e de me despertar emoções impulsivas; assim como hoje. Hoje, chorei porque apesar de eu ter mudado tantos nesses dez anos, Bia ainda faz questão, mesmo doente e idosa, de juntar suas poucas forças restantes para erguer levemente sua cabeça e me olhar nos olhos... Me olhar nos olhos e dizer que me ama por tudo aquilo que eu realmente sou, me ama porque é capaz de enxergar dentro de mim, porque seus brilhantes olhos atingem minha alma.
Hoje, apesar deste dia gélido de inverno, sinto o calor de todas as emoções e sentimentos que meu melhor presente pôde me ensinar. E mesmo que meu presente se vá, comigo ainda ficará doces memórias... de quando nas tardes quentes aparecíamos triunfantes no portão de nossa casa, felizes para dizer ao mundo: Veja, nos completamos tão bem que nos tornamos uma só.
What more in the name of Love.

Querida e respeitosa Solidão, chegastes tão sutil e serena que quase não pude perceber tua presença. Qual não foi minha surpresa ao perceber que em teus vastos e brumosos braços eu me perdia!?
Mas não pudestes esconder tua natureza por muito tempo: Logo teu símbolo surgiu para mim, e mesmo hoje percebo que o eco de minha voz permeia o vazio e não chega a lugar algum; pois aqueles que distantemente eu sabia que eram capazes de me ouvir, já não o fazem mais.
Então, confortável e conscientemente estou aderindo à frieza que te é característica, querida Solidão, e sou a ti tão devota que te representarei, tenho certeza, com perfeição. Pois eu estou contigo e tu estás em mim, embora em mim caiba muito mais.
Em mim cabe todo o espírito sufocado, todo o vazio existencial, toda a falta de moralismo e de compaixão, todas as inverdades, todas as máscaras e todas as verdades deflagradas. Em mim cabe a complexidade do sentimento que se deve ao único, que é o todo, e que se perde. Ou se abandona. Ou se manda embora. Mas, em ti, Solidão, cabe apenas eu.
Dessa forma, amo a tua existência, visto que também sou egoísta. Porque em ti, Solidão, repito: cabe apenas eu.
[...]
E para aqueles que o meu olhar direciona, percebam o quão contraditória me torno: Preciso da crueldade de alguém para tomar-me a solidão, assim como... e eu me calo novamente pois não é esse o sentimento em questão.
Indiferença
Pessoas transparecem sua inconsciência e perversidade de modo muito objetivo; E, de tão pretensiosamente seguras de suas verdades inventadas, tornam-se incapazes de perceber a óbvia incoerência das tais.
Mas, se pensam estes que podem ferir-me de algum modo... Bem, então é porque se encontram duplamente enganados. Pois a existência já é demasiada amoral, inconstante, injusta e mutável para meus olhos que já se cegaram de tanto ver, que mais um mero detalhe infeliz não fará diferença alguma.
Em síntese, se por acaso não pôde entender também minhas recentes palavras: quem fica preso aos “achismos”, nas pretensões de suas idéias totalmente ERRÔNEAS, sendo incapaz de mudar, bom, este não me serve; dispensado está de minha vida e sua real inconstância.
[...]
Mas se tem uma coisa que me deixa infeliz é o desaparecimento da palavra “exceção” e qualquer variante que esta possa ter. Ninguém acredita mais nela, e ninguém a pratica. Eu costumava acreditar, e eu costumava tentar ser. Mas que bela ilusão infantil! Estamos todos no mesmo barco, sem rumo, mas com certeza em direção à tempestade. Pelo menos agora posso compartilhar com meu eu mais íntimo a descoberta de que o sinônimo de “todo”- ou seria “todos”? - é “decepção”.
[...]
E nada foge à natureza humana.
[...]
Apenas mais uma coisa (ou várias), pois ainda preciso canalizar meu ódio, que hoje é muito, em inspiração.
Não estou pagando pra ver a última cena desta peça vazia e barata. Aliás, não deveria ter nem ao menos presenciado seu princípio.
[...]
Novamente, a indiferença vence. E reina absoluta.
Ingrata, auto-denominada
Antes o brilho de distante estrela opaca, com sua magia não desvendada
Do que a visão perfeita e artificial deste sol contínuo que inventamos.
Antes céu manchado de cinza escuro, carregado das nuvens pesadas, por todas as lágrimas não derramadas
Do que o cenário confortável que vivemos por tantos anos.
Antes eu contigo, para provar ser real
Do que eu comigo mesma neste mundo de papel:
Mais eterno do que efêmero,
Mais silencioso do que incômodo,
Mais inequívoco do que a indiferença, embora ainda indiferente.
Então quero que você me leve pela estrada certa, desenhando-a com seu pincel
Enquanto lhe direi o que meu mistério, o meu segredo, o meu lado cruel
Dir-lhe-ei que
No desentender-se é que se encontra,
No desatino é que se fala mais sério,
É no concordar que se vai contra...
Até que a tinta se esvaia inteiramente de minhas veias,
Em minha contrariedade inexata
Para que eu lhe desvende a minha mentira – ou o meu dilema?
Pois sempre a dúvida que dita o fim...
É por amar-te tanto que te quero longe,
Muito longe de mim.
