Raquel, é com consternado alívio que observo daqui, de minha janela, as nuvens abrirem caminho para o sol iluminar minha face, a vizinhança e todo o resto. Pois você não sabe, menina, quão difíceis são os dias em que chove, onde o espírito de renascimento apenas relembra-me o momento de nossa indelével despedida.
Pois, também já não são mais as andorinhas que avisto ao contemplar o céu da primavera; já não é mais o mar cinzento e bravio que me afunda em divagações e imaginárias viagens perigosas. Não é mais o canto dos pássaros que me acorda; não é mais a sinfonia caprichosa dos grilos que me faz adormecer. Em minha condescendência muda, vi o mundo reduzir-se a um canto singelo do meu quarto, no qual eu ainda espero imóvel e esperançoso, o retorno triunfal do majestoso sol a minha janela.
E isso talvez porque seu retorno seja uma das poucas coisas que sempre permaneceram intactas ao longo destas duas décadas, cinco anos, nove meses e treze dias.
Raquel, já não sou mais aquele menininho dos tempos idos de infância. Perceba, já não recolho mais flores do campo para presenteá-la, esperando que, em troca, você lançasse-me aquele tépido olhar de desdém... Agora, meu espírito recluso apenas sonha libertar-se, resgatar-se, perder-se e resgatar-se novamente, até que tenha semeado, anos a fio e pelo mundo inteiro, partes da minha alma a cada encruzilhada, ponte e sarjeta, esperando que delas brotem girassóis. E que dos girassóis brotem sorrisos nos rostos das pessoas, e que do sorriso delas floresça... floresça novamente o que já se apagou em mim. E então, talvez, eu possa nascer de novo, quiçá como uma pétala, ou quem sabe uma lágrima de felicidade, em seu caminho.
Porque, Raquel, assim como a Terra gira em torno do sol, minha alma piegas ainda depende de sua veemência. Depois dessas duas décadas, cinco anos, nove meses, treze dias e vários minutos desperdiçados em cartas as quais nunca lhe enviarei.
A distância é uma sina... bela, muitas vezes, é verdade, mas ainda incompreensível, estranhamente abstrata e concreta. Mas a distância... Oh, a distância! Devido a ela que percebo, Raquel, em você, o que tanto admiro nas estrelas: o ardor com que brilham, na ingenuidade extrema de tentar tornarem-se eternas.