Ele era muito ocupado. Muito. A pessoa mais ocupada do mundo. Ao menos, era isso o que parecia: enquanto se vestisse na mentira que contava a si mesmo, estaria livre do mundo e preso na jaula que era o egocentrismo.
Os passos eram duros e ágeis; pressionavam com aspereza o chão antigo das ruas, enquanto levantavam a poeira que na luz do dia tornava-se invisível. A maleta de couro legítimo, recém comprada, condizia com terno e sapatos, impecavelmente limpos – e caros –; os óculos escuros completavam a aparência do indivíduo, que debaixo de toda aquela altivez escondia um amontoado de emoções frágeis.
Havia um rosto que fazia tempos ele queria encontrar. Porém, relutante, o homem afastara os pensamentos, deixando-os vagar longe para que, então, convergissem no desconhecido, sem que pudessem retornar para feri-lo. Fez isto para que sua camuflagem se mantivesse intocada: Seu egoísmo nunca estaria completo se porventura se ofendesse com o egoísmo alheio.
Eis que a face, outrora apagada, regressa vívida em sua mente, entremeio as esquinas daquele lugar que ele fora parar sabe-se lá como. Não havia dúvidas, era ela, a mesma de sempre: angelical e demoníaca, perfeita e decadente... Extraordinariamente reluzente e bonita para que se pudesse considerar humana.
Não. Ela não existe, e ela não precisa ser encontrada. Eu não preciso me perder. O homem seguiu seu rumo, sem perceber que havia errado o verbo: Já estava perdido.
Os passos ágeis, tão incomuns àquela tranqüilidade de cidade pequena, eram vistos com ceticidade pelos mais velhos, que à cena observavam dos bancos das praças ou em cadeiras de madeira carcomida postas em frente às casas. As poucas crianças observavam-no com curiosidade, como se de frente estivessem com alguma aberração.
Uma das crianças, um menino, o qual andava silenciosa e vagarosamente em sua pequena bicicleta, admirava absorto o estranho. Tanto que se aproximou demasiadamente e, no seu descuido, cruzou o caminho do homem. A desatenção mútua fez com que ambos alcançassem o chão. Nenhum ferimento, nenhuma grave conseqüência. Apenas uma bicicleta arranhada e um adulto perplexo, tão perplexo quanto antes parecia ocupado e impaciente.
Naquele fim de tarde atípico, dois pares de olhos encontraram-se atônitos, olhando-se sem se ver, porquanto cada qual se via refletido no outro. A mesma angústia, a mesma profundidade.
O garoto enfim levantou-se do chão, correndo desmedidamente em direção à grande e antiquada casa da esquina.
O homem levantou a cabeça para que sua visão pudesse contemplar a casa do outro lado da rua, para onde a criança se fora; um estranho reconhecimento nostálgico percorreu-lhe a espinha. Como? A razão lhe dizia que jamais estivera ali antes; porém, algo... algum impulso... sim, um impulso...
Quando notou, já estava em frente à porta da residência, a casa nostálgica da esquina, com a pintura amarelo-creme desbotado. Estagnado, não foi capaz de erguer uma das mãos para tocar a campainha; afinal, nada tinha a dizer, nada tinha a fazer ali. Mas aquele impulso...
A mulher que abriu a porta para encará-lo sorria, sorria por dentro e por fora, por ódio e por amor, por desentendimento e compreensão. Sorria com uma lágrima de memória, uma lágrima que escorria de olhos idênticos aos do menino na rua...
Eis que a face, outrora apagada, regressa vívida em sua mente. E agora, também, em seu mundo.
── Precisamos conversar.
Disse a voz, angelical e demoníaca, perfeita e decadente... Enquanto os pulmões contraíam-se e distendiam-se, dando forma à respiração ofegante, cúmplice eleita das surpresas contraditórias.
E ele adentrou a casa e ele ruiu, perdido que estava em sua convicção – aparentemente – infalível.

1 viajantes interestelares:
Seu comentário é um dos mais lindos que recebi.
Obrigada.
Postar um comentário
Então diga-me, querido pirata, o que encontrou nestes mares: Monstros, tesouros, sereias ou apenas uma concha mágica azulada e encantadora?