Puseram-na fantasias das mais diversas sem que, no entanto, nenhuma delas vestisse-a melhor do que sua própria face gélida, a qual refletia nos espelhos, nas janelas, na prataria, nos olhos preocupados, nos olhos invejosos, nas pupilas dilatadas, na água que caía, caía, caía e que, como ela, era flagrada absorta contemplando nada mais do que o vazio.
A multidão contrastava e resplandecia; permanecia, no entanto, intocável a coloração da face gélida como a neve; branca como a neve; detentora da alcunha perfeita dedicada a poucos.
Recusando com um tapa nova vestimenta, a qual, novamente, não a aprazia, voltou-se aos cabides e deles retirou capa purpúrea, jogando-a sobre o corpo assim como jogava seu olhar de desprezo a todos que a cerceavam. Correu às escadas no intuito de descê-las e, assim como previra, o séquito a seguiu.
Bastardos! Infames! Não sou, nem jamais serei prisioneira de vossos caprichos! Pois a opressão mora dentro de minhas veias. Esquecera-se, ou apenas não quisera completar.
Vestidos serpenteavam pelo chão do palácio enquanto a movimentação e a balbúrdia eram construídas pela saída daquela que possuía o olhar majestoso; portões eram abertos e logo após fechados; ordens eram dadas sem que pudessem ser ouvidas; e então, a muito custo, finalmente encontrava-se ela sozinha.
Estava disposta a enfrentar a realidade. Deu alguns passos.
Fitou friamente a escuridão. Perguntava-se se não estava mesmo olhando dentro dos próprios olhos. Como pode ser a escuridão assim, tão luminosa?
A mulher destitui-se do próprio posto. Afinal, não existem rainhas em palácios e lugares que não existem. Não, ela já não mais existia.
A vitória já não cabe em nenhum lugar; a falsa sensação de felicidade morrerá dentro de qualquer orgulho. Incutida está e estará, para sempre, a derrota, dentro da memória.
Lâminas cortam o ar enquanto a razão é paga com a insanidade e enquanto a queda se torna, estranhamente, incomum.
Eis que então, como o pensamento mais lúcido de todos, o hálito venenoso da realidade surge e derrete a neve, esperando que novos tempos floresçam.

5 viajantes interestelares:
O que você está fazendo que ainda não escreveu um livro, Sandra? Amei o seu jeito de escrever, bem pensado, escolhe as melhores palavras e as dispõe de modo primoroso. Gostei do tom fantasioso no blog. Parabéns, invista em um livro para publicar.
Você estava tentando se descrever majestosamente, San? Pois digo-lhe que ficou majestosamente a seu estilo e, como muitas das outras, combina completamente contigo. E também comigo.
"Como pode ser a escuridão assim, tão luminosa?"
Ok. Este texto já me cativou por completo. E agora? Enfim, você escreve tão bem que fiquei pasma. O fato é que pareço estar vendo a cena de um clássico; meio nevoenta, é verdade, tal qual nossos sentimentos e ilusões.
Parabéns. Linkei seu blog, se você não se importar. :}
Seu blog é uma coisa linda, não dá pra não seguir.
Estou assim, sem palavras. O jeito como você consegue descrever um mundo inteiro sem descrever um mundo inteiro. Sabe? Complicado explicar.
Seu texto é tão sutil e ainda assim te suga a atenção. Wonderful.
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Então diga-me, querido pirata, o que encontrou nestes mares: Monstros, tesouros, sereias ou apenas uma concha mágica azulada e encantadora?