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domingo, 10 de outubro de 2010

Armários, Cômodas, Guarda-Roupas

Desamparados estão aqueles que amparados por mentiras foram; desamparados estão sem saber, sem suspeitar, ainda que invariavelmente encontrem-se, às vezes, duvidosos.

E a eles é aplicada então, mais meia dúzia de palavras com o intuito de lhes concederem o gosto da incerteza. Incerteza. Ela mesma, sim, pois se neste mundo inexistentes são as coisas imutáveis e absolutas, não há de ser a mentira, corrupta como ela só, exceção. Corrupta como ela só, fazendo-se mergulhar com doçura no inferno. Pois! É do inferno que se abrem as portas para o paraíso, e, enquanto já situado no paraíso, jamais poderá dele sair. Bela prisão. Quantos de nós escolheríamos – consciente ou inconscientemente – a prometida liberdade? Temo que você fosse um destes meliantes que acabariam com meu jogo. Não, não escolha tão rápido o inferno: deixe-me construí-lo para você.

Mentes mendazes, se eu pudesse mesmo lê-las todas, ainda assim seria incapaz de encontrar definição certa para os impulsos que tenho agora. Desvario meu ou não, penso que, mesmo ao revelar-me sinceramente, ainda estaria a mentir-lhes. Não está contida em mim a definição de verdade, portanto já não sei o que vem a ser o seu oposto. Contudo, o caos mora em mim, e por isso lhe afirmo: aqui está quem será para sempre o oposto.

Pensamentos pecaminosos são tão puros... Puramente humanos. E, no entanto, nenhum deles jamais me foi revelado; preciso enxergá-los onde estão, onde estarão e onde estiveram, preciso admirar apenas seus reflexos, preciso forçar-me às sombras da inocuidade e demonstrar apenas minha tão majestosa ética celestial.

Queria ter seu cérebro em minhas mãos. E o seu sangue quente escorrendo delas. Queria ter um amontoado de cérebros guardados como relíquias dentro dos armários, das cômodas, do meu guarda-roupa. Mas não os terei, já que o ato de consegui-los implicaria que os escolhidos, mesmo segundos antes de morrer, descobririam minha personalidade dominante. Isso não é amedrontador?

Não, eu não fui irônica, eu fui retórica, e espero que meu autocontrole tenha sido muito bem entendido. Espero que você tenha entendido a mentira por trás da mentira, por trás do segredo por trás da verdade – verdade que não passa de outra mentira.

Você nasceu para ser manipulado. Eu nasci para ser mártir em prol da tirania, o adorno estimado das masmorras. Eu nasci para mostrar que a luz em que você mergulha é muito mais perigosa que a escuridão, pois a sua luz é superficial; a escuridão é profunda.

Você queria a liberdade e eu a concedi, mas perceba que meu sangue ainda está no seu espelho quebrado. Querido, agora eu quero que você fuja. Porém nunca esqueça:

O seu cérebro já é meu.

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Então diga-me, querido pirata, o que encontrou nestes mares: Monstros, tesouros, sereias ou apenas uma concha mágica azulada e encantadora?

 

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