- Antes de tudo: eu te odeio. Mesmo assim, obrigada por ter vindo.
- Igualmente. E, se me permite o comentário, fico feliz que você tenha se tornado uma pessoa assim tão afetuosa.
- Na verdade, não lhe permiti qualquer comentário. Mas não importa. [ . . . ] Afinal, por que veio?
- Não era esse o combinado? Escuta, minha memória não é tão ruim assi...
- Você sabe que isso não é uma questão de lembrar-se ou não! O fato de você estar aqui me confere um perdão, coisa que não mereço.
- Pare de mudar tanto assim o discurso! Continue me odiando: eu ainda não lhe perdoei. Só queria poder vê-la uma última vez. Ou melhor, queria estar consciente de que esta seria a última vez que a veria.
- [ . . . ] Eu vi-o outras vezes depois que fui embora. Discreta que sou, estive até no seu casamento. Aliás, como estava linda Marianne naquele vestido! Fiquei contente por terem-se casado tão logo após meu desaparecimento: sinal de que o mundo sempre gira do modo como esperamos que ele faça. Tiveram filhos?
- Nenhum. Animais de estimação contam?
- Contam.
- Também não tivemos.
- Uma pena. Bem, eu tive um filho. Dei a ele o seu nome, Gerald. Porém, o melhor dos filhos são os netos. Minha neta, tão jovem, tão bela... Felicidade transbordante! Faz-me lembrar a mim mesma em tempos idos. Por certo, às vezes pego-a roubando alguns trocados de minha carteira, mas nada que doa. Conheço seus planos: fugirá com o namorado no verão – está juntando dinheiro para a fuga.
- Incrível como se parecem tanto, apesar dos objetivos diametralmente opostos... Veja, se eu soubesse que você partiria, teria não fugido com você no verão, mas sim seqüestrado-a em plena primavera. [ . . . ] Eu ia pedi-la em casamento, no dia em que fugisses.
- E eu teria aceito. Por isso fugi.
- Você fala como se fosse fácil para mim engolir isso, mesmo 54 anos depois.
- Pois foi e é fácil, querido. Você sobreviveu e está aqui, recriando-me como acha que devo ser.
- Estou sonhando? Maldição! Eu estou sonhando; só podia.
- Não, você está morrendo.
- Morrendo eu sempre estive. Você deveria ter dito : Gerald, você está muito próximo morte. Vim para buscar-te. Levar-te-ei ao inferno, – ou ao céu, como vou saber? – já que não pude fazer isso em vida.
- Poético e arcaico demais para meus modos. Controle-se e não me rebaixe tanto.
- Eu estou sonhando.
- Você está sonhando. Você é um velho que sonha muito.
- Ou nada sonha. Por isso fostes; meu vazio era incompatível com o teu.
- Que bom que compreendes. [ . . . ] Desculpe-me. Por tudo.
- Nada tenho a desculpar. Eu estava mentindo: minha memória é de todo muito ruim.
- A minha também. Gerald, eu quase não me lembrava do seu rosto; lembrava apenas que eu odiava o modo como você respirava, falava e observava as pessoas. Aliás, ainda odeio.
- Eu também amo você, Elizabeth.
[ Post dedicado à Daniela Lebre Garcia e também à Larissa Pernalonga. ]
[ Post dedicado à Daniela Lebre Garcia e também à Larissa Pernalonga. ]

0 viajantes interestelares:
Postar um comentário
Então diga-me, querido pirata, o que encontrou nestes mares: Monstros, tesouros, sereias ou apenas uma concha mágica azulada e encantadora?